Enquanto produtos asiáticos ganham espaço nas lojas brasileiras, fabricantes locais enfrentam uma competição cada vez mais difícil. O fenômeno levanta dúvidas sobre competitividade, emprego industrial e o futuro da reindustrialização no país.
O Brasil começou 2026 com um novo recorde na importação de calçados. Somente em janeiro, entraram no país 4,46 milhões de pares, o maior volume já registrado para o mês desde o início da série histórica, em 1997. Em valores, as compras externas alcançaram US$ 62,9 milhões, com crescimento superior a 30% na comparação anual.
À primeira vista, o dado pode parecer apenas mais uma estatística do comércio exterior.
Mas, observado em conjunto com a evolução da indústria brasileira, o avanço dos importados revela algo maior: o Brasil está consumindo mais produtos fabricados no exterior justamente em um momento em que o discurso oficial enfatiza a reindustrialização, o fortalecimento da produção nacional e a geração de empregos industriais.
O fenômeno não afeta apenas fabricantes de calçados. Ele funciona como um retrato de um desafio mais amplo enfrentado por diversos setores da indústria brasileira.
A invasão silenciosa dos calçados asiáticos
O crescimento das importações não ocorreu por acaso.
Nos últimos anos, fabricantes asiáticos ampliaram significativamente sua presença no mercado brasileiro. Vietnã, China e Indonésia já respondem por cerca de 84% dos calçados importados pelo país.
O movimento é resultado de uma combinação de fatores:
- maior escala de produção;
- custos menores;
- cadeias produtivas altamente integradas;
- forte capacidade logística;
- ganhos de produtividade acumulados ao longo de décadas.
Enquanto isso, fabricantes brasileiros enfrentam um ambiente de negócios historicamente mais complexo e caro.
Na prática, um consumidor que entra em uma loja muitas vezes encontra um produto importado com design semelhante, qualidade comparável e preço inferior ao equivalente nacional.
Quando isso acontece milhares de vezes por dia, a participação dos importados cresce de forma gradual até se tornar estrutural.
As importações de calçados atingiram, em janeiro deste ano, o maior volume já registrado para o mês desde o início da série histórica em 1997.
Segundo dados elaborados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com base nos registros da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), ingressaram no país 4,46 milhões de pares, que somaram US$ 62,9 milhões — altas de 34,3% em volume e de 31,2% em valor na comparação com janeiro de 2025.
O avanço mantém uma trajetória contínua de crescimento das compras externas observada nos últimos cinco anos, com predominância de fornecedores asiáticos, especialmente Vietnã, China e Indonésia, responsáveis por 84% do total importado.
Em termos de números, o ranking dos principais países em janeiro que mais enviaram calçados para o Brasil ficou assim:
1) Vietnã: 1,5 milhão de pares;
2) China: 1,26 milhão de pares
3) Indonésia: 996 mil pares
As importações brasileiras de calçados seguem em crescimento, movimento observado nos últimos anos e que se mantém mesmo diante da menor dinâmica do mercado doméstico, fato que impacta na produção nacional.
No primeiro bimestre de 2026, as importações de calçados somaram 9,7 milhões de pares e US$ 109,27 milhões, incrementos tanto em volume (+23%) quanto em receita (+12,1%) em relação ao mesmo período do ano passado. As principais origens seguem sendo os países asiáticos: China (3,16 milhões de pares e US$ 8 milhões, incremento de 18,2% em volume e queda de 12,9% em receita ante o mesmo intervalo de 2025); Vietnã (2,53 milhões de pares e US$ 55,25 milhões, aumentos de 1% e 15,3%, respectivamente, ante o mesmo ínterim do ano passado); e Indonésia (1,55 milhão de pares e US$ 27,3 milhões, crescimentos de 4,7% e 16,2% em relação ao mesmo período de 2025).
Em partes – cabedais, saltos, solados, palmilhas etc -, as importações do bimestre somaram US$ 10,63 milhões, 10,2% mais do que no mesmo intervalo do ano passado. As principais origens foram China, Paraguai e Vietnã.
O que a guerra comercial entre Estados Unidos e China tem a ver com isso
Existe um componente geopolítico relevante por trás dos números.
Nos últimos anos, Estados Unidos e outros países ampliaram barreiras comerciais contra produtos chineses em diversos segmentos industriais.
Ao mesmo tempo, a desaceleração da economia chinesa reduziu parte da demanda doméstica.
O resultado é um excedente de capacidade produtiva que precisa encontrar compradores em outros mercados.
Nesse contexto, economias emergentes como o Brasil tornam-se destinos naturais para produtos manufaturados asiáticos.
O próprio setor calçadista brasileiro tem alertado que a China vem aumentando sua presença não apenas no mercado brasileiro, mas também em mercados latino-americanos tradicionalmente abastecidos por fabricantes nacionais.
Isso cria uma pressão dupla:
- mais concorrência dentro do Brasil;
- mais concorrência nos mercados externos.
O que estão escondendo do debate
Grande parte das discussões sobre importações costuma focar na concorrência estrangeira.
Mas essa é apenas metade da história.
A pergunta mais importante talvez seja outra:
Por que o Brasil encontra tanta dificuldade para competir dentro do próprio mercado?
Se o consumo cresce, se a população continua comprando calçados e se o país possui tradição industrial no setor, por que a produção local perde espaço?
A resposta passa menos pela força dos concorrentes estrangeiros e mais pelos problemas estruturais domésticos.
O avanço dos importados muitas vezes expõe fragilidades que já existiam.
Por que produzir no Brasil continua mais caro
Empresários do setor frequentemente apontam uma combinação de fatores que reduz a competitividade nacional:
- sistema tributário complexo;
- elevada burocracia regulatória;
- custos logísticos superiores aos concorrentes asiáticos;
- infraestrutura insuficiente;
- custo de capital historicamente elevado;
- insegurança jurídica;
- baixa produtividade média da economia.
Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o fenômeno.
Juntos, porém, criam um ambiente em que produzir localmente pode se tornar significativamente mais caro do que importar.
O resultado é que parte da indústria acaba disputando mercado em condições menos favoráveis.
O dado contraria o discurso da reindustrialização do governo Lula
Nos últimos anos, a política industrial voltou ao centro do debate econômico brasileiro.
Programas como a Nova Indústria Brasil foram apresentados pelo governo Lula com o objetivo de estimular investimentos, ampliar a produtividade e aumentar a participação da indústria na economia. Mas que quase quatro anos depois não apresentam resultado de fato permanece uma narrativa.
A proposta parte de um diagnóstico conhecido: a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro vem recuando há décadas, fenômeno frequentemente descrito como desindustrialização. Mas que se iniciou nos governos anteriores do PT abrindo as portas para a China sem exigir contrapartida vantajosa ao Brasil.
O recorde de importações de calçados não invalida essas políticas.
Mas evidencia a dimensão do desafio.
Enquanto o discurso oficial de Lula enfatiza a necessidade de fortalecer a produção nacional, o mercado continua absorvendo quantidades crescentes de produtos fabricados no exterior.
Isso sugere que programas de incentivo, crédito direcionado e financiamento subsidiado, embora importantes, podem não ser suficientes para resolver problemas ligados à competitividade estrutural.
A experiência internacional mostra que países industrialmente fortes costumam combinar financiamento, inovação, infraestrutura eficiente, ambiente regulatório previsível e ganhos contínuos de produtividade.
Sem esses elementos, a indústria tende a enfrentar dificuldades mesmo quando existem políticas específicas de apoio. Contudo, no Brasil atual existe um apoio especial do governo aos produtos chineses, que entram no Brasil livre de impostos em várias situações, já a indústria brasileira passa por uma carga tributária pesada, a maior da história.
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Quem realmente ganha com o avanço das importações
O debate costuma ser apresentado como um conflito entre indústria e concorrentes estrangeiros.
Na prática, existem vários vencedores.
Consumidores
São os beneficiários mais visíveis.
Maior concorrência tende a ampliar opções e reduzir preços.
Para famílias com orçamento apertado, isso pode representar ganho direto de poder de compra.
Grandes varejistas
Redes que possuem escala suficiente para importar diretamente conseguem ampliar margens e negociar melhores condições comerciais.
Marketplaces
Plataformas digitais se beneficiam do aumento da oferta e da entrada de novos vendedores.
Importadores
Empresas especializadas na intermediação das compras internacionais capturam uma parcela crescente da cadeia de valor.
Quem perde
Os impactos negativos tendem a se concentrar em segmentos específicos.
Fabricantes nacionais menos eficientes
Empresas com baixa escala ou estrutura de custos mais pesada costumam ser as primeiras a sentir a pressão competitiva.
Trabalhadores industriais
Se a produção local desacelera, o efeito pode aparecer na geração de empregos e na renda de regiões dependentes do setor.
Municípios especializados
Polos tradicionais como Franca, Vale dos Sinos e outras regiões ligadas à cadeia calçadista ficam mais vulneráveis quando a produção perde participação de mercado.
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O papel do dólar na invasão dos importados
Outro fator relevante para compreender o avanço das importações é o comportamento do câmbio.
Tradicionalmente, um dólar mais valorizado tende a encarecer produtos importados e favorecer fabricantes locais.
Já períodos de apreciação do real costumam tornar as compras externas mais competitivas.
No entanto, a dinâmica atual é mais complexa.
Mesmo em cenários de volatilidade cambial, muitos fabricantes asiáticos continuam conseguindo oferecer preços competitivos graças à enorme escala de produção e aos ganhos de produtividade acumulados ao longo de décadas. Ao custo baixissimo de sua mão de obra, além de impostos zerados ou reduzidos para entrar no Brasil.
Em outras palavras, o câmbio continua sendo importante, mas deixou de ser a única variável relevante.
Para diversos segmentos industriais, a diferença de competitividade entre Brasil e Ásia tornou-se suficientemente grande para sobreviver até mesmo a períodos menos favoráveis do ponto de vista cambial.
Isso ajuda a explicar por que o avanço das importações tem persistido mesmo em momentos nos quais a taxa de câmbio, isoladamente, não justificaria uma expansão tão forte das compras externas.
Por que o Vietnã virou uma ameaça maior do que a China para parte da indústria brasileira
Quando se fala em concorrência internacional, a atenção costuma se concentrar na China.
Mas dentro da indústria calçadista existe outro protagonista ganhando espaço rapidamente: o Vietnã.
O país se transformou em um dos maiores polos globais de fabricação de calçados, abrigando unidades produtivas que fornecem para algumas das principais marcas internacionais do setor.
Além dos custos competitivos de produção, o Vietnã desenvolveu uma cadeia industrial altamente integrada, com fornecedores, fabricantes e operadores logísticos funcionando de forma coordenada. Mesmo modelo chinês.
O resultado é uma capacidade crescente de produzir grandes volumes com eficiência elevada.
Não por acaso, o país aparece entre os principais fornecedores de calçados para o mercado brasileiro e lidera diversos rankings de exportação do setor.
Para fabricantes brasileiros, a competição com o Vietnã apresenta uma dificuldade adicional.
Enquanto a China enfrenta crescente resistência comercial em diversas regiões do mundo, o Vietnã muitas vezes consegue acessar mercados internacionais com menos barreiras e menor desgaste geopolítico.
Na prática, isso significa que parte da concorrência que antes era associada quase exclusivamente à China está sendo compartilhada por novos polos industriais asiáticos igualmente eficientes.
O falso debate entre proteção e competitividade
Sempre que as importações avançam, ressurge a discussão sobre proteção da indústria nacional.
Mas essa abordagem costuma simplificar excessivamente o problema.
Existe um contraponto importante.
O consumidor não tem obrigação de pagar mais caro apenas para preservar empresas menos competitivas.
Ao mesmo tempo, também é legítimo questionar se fabricantes brasileiros competem em igualdade de condições com empresas que operam em ambientes tributários, regulatórios e logísticos muito diferentes.
A discussão relevante não é simplesmente impedir importações.
A questão central é entender por que produzir no Brasil continua sendo tão caro e burocrático.
Sem resolver esse problema estrutural, barreiras comerciais tendem apenas a adiar desafios que permanecem existindo.
O que investidores devem observar
O avanço das importações possui implicações que vão além do setor calçadista.
Investidores podem monitorar:
- evolução da produção industrial;
- participação dos importados no consumo doméstico;
- desempenho das exportações do setor;
- geração de empregos industriais;
- empresas de logística e transporte;
- operadores portuários;
- varejistas com forte presença em importação;
- marketplaces que ampliam a venda de produtos estrangeiros.
Em muitos casos, as empresas que mais se beneficiam dessa transformação não são necessariamente as fabricantes, mas os intermediários da cadeia comercial.
O recorde desafia o discurso da reindustrialização
O governo frequentemente defende a necessidade de fortalecer a indústria nacional.
Mas os números mostram uma realidade mais complexa.
Enquanto o debate político gira em torno da reindustrialização, os consumidores continuam comprando volumes crescentes de produtos fabricados no exterior.
Isso não significa necessariamente que a indústria brasileira esteja em colapso.
Inclusive, entidades do setor projetam estabilidade ou leve crescimento da produção nacional em 2026.
Mas evidencia que o desafio vai muito além de programas de incentivo ou linhas de crédito.
Crise no Brasil
A questão envolve produtividade, competitividade global e capacidade de competir com algumas das maiores plataformas industriais do planeta.
O recorde de importações de calçados em 2026 não é apenas uma curiosidade estatística do comércio exterior.
Ele oferece uma janela para compreender um dos principais desafios da economia brasileira: a dificuldade de transformar potencial industrial em competitividade global sustentável com excesso de impostos e baixa produtividade.
O país continua possuindo mercado consumidor relevante, tradição manufatureira, disponibilidade de matérias-primas e capacidade produtiva instalada.
Ainda assim, produtos estrangeiros avançam de forma consistente dentro do próprio mercado nacional.
Mais do que uma discussão sobre calçados, o recorde de 2026 expõe uma questão central para os próximos anos: o Brasil conseguirá competir em uma economia global cada vez mais integrada ou continuará perdendo espaço para países que produzem mais barato, mais rápido e com maior eficiência, sem tanta burocracia e um dos maiores impostos do mundo.
É essa pergunta — e não apenas o número recorde das importações — que deveria estar no centro do debate econômico.








