Baixa contábil de US$ 110 milhões na operação americana Resia voltou a pressionar o balanço; enquanto isso, principal operação do grupo elevou lucro, margem e geração de caixa
Resumo executivo
A MRV&Co (MRVE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com prejuízo líquido consolidado de R$ 626,3 milhões, mas o número esconde movimentos distintos dentro do grupo. A principal pressão veio novamente da Resia, operação nos Estados Unidos que está sendo descontinuada e sofreu uma nova baixa contábil de US$ 110 milhões. Excluídos efeitos financeiros e não recorrentes, o grupo apresentou lucro líquido ajustado de R$ 73,8 milhões.
O balanço mostra, portanto, duas histórias ao mesmo tempo: de um lado, o processo de saída dos EUA ainda gera perdas relevantes; de outro, a operação brasileira apresenta melhora de rentabilidade, enquanto a venda de ativos da Resia começa a reduzir a alavancagem consolidada.
O prejuízo ainda é grande — mas sua composição mudou
O prejuízo de R$ 626,3 milhões representa uma redução de 22,7% em relação à perda registrada no segundo trimestre de 2025.
O principal fator extraordinário foi o impairment de US$ 110 milhões reconhecido pela Resia. A baixa ocorreu porque empreendimentos e terrenos foram vendidos por valores inferiores aos registrados contabilmente, em um ambiente de mercado mais adverso nos Estados Unidos.
Não é a primeira vez que a companhia precisa ajustar o valor dos ativos americanos. No ano passado, a Resia já havia registrado um impairment de US$ 144 milhões, no início do processo de venda dos ativos.
A decisão atual deixa mais claro o objetivo da administração: aceitar perdas contábeis e vender ativos por preços abaixo do valor patrimonial para acelerar a redução da dívida e encerrar a exposição ao negócio americano.
“Vendemos em condições de mercado piores do que o imaginado”, afirmou o diretor financeiro e de relações com investidores da companhia, Ricardo Paixão.
Segundo ele, a estratégia passou a priorizar a desalavancagem, mesmo que isso implique vender determinados ativos abaixo do valor contábil.
O número que merece atenção: lucro ajustado de R$ 73,8 milhões
O prejuízo contábil não conta sozinho a história do trimestre.
No critério ajustado, que elimina efeitos financeiros e itens não recorrentes, a MRV&Co registrou lucro líquido consolidado de R$ 73,8 milhões.
Essa diferença é importante para entender o momento da companhia. O resultado mostra que a operação recorrente já apresenta capacidade de geração de lucro, enquanto o prejuízo consolidado continua fortemente afetado pela decisão de desmontar a operação americana.
Para o investidor, a questão central deixa de ser apenas quanto a MRV perdeu no trimestre e passa a ser quanto ainda custará a saída da Resia e em que velocidade a desalavancagem poderá compensar esse impacto.
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Receita cresce e operação brasileira ganha eficiência
A receita líquida consolidada alcançou R$ 2,99 bilhões, avanço de 10,7% sobre o mesmo período de 2025.
O crescimento foi impulsionado principalmente pela MRV Incorporação, que combinou aumento das vendas, evolução das obras e melhora da margem.
As despesas operacionais consolidadas, por sua vez, somaram R$ 1,1 bilhão, queda de 18,9% na comparação anual.
O resultado financeiro, entretanto, continuou sendo um ponto de pressão. A companhia registrou despesa financeira líquida de R$ 393,2 milhões, alta de aproximadamente 60% em um ano.
A linha inclui custos relacionados à dívida, cessão de recebíveis e contrato de equity swap.
Esse contraste ajuda a explicar o balanço: a operação melhora, mas o custo da estrutura financeira ainda consome uma parcela relevante desse avanço.
MRV Incorporação mostra onde está a melhora
A principal divisão do grupo apresentou lucro líquido ajustado de R$ 155 milhões, alta de 28,2% sobre o segundo trimestre de 2025.
A geração de caixa chegou a R$ 148,7 milhões.
A margem bruta avançou para 31,2%, alta de 1 ponto percentual em 12 meses. A companhia atribui a evolução ao aumento da receita e à diluição dos custos.
Outro elemento importante é a política de preços. O preço médio dos apartamentos vendidos no trimestre foi de R$ 271 mil, enquanto o preço médio dos lançamentos ficou em R$ 277 mil.
A estratégia de reajustar os preços em ritmo igual ou superior à inflação busca ampliar a rentabilidade dos empreendimentos.
Mas existe um ponto de atenção: a companhia realizou cancelamentos de vendas de clientes inadimplentes durante o trimestre. Esse movimento prejudicou temporariamente a trajetória de expansão da margem bruta.
Ainda assim, a administração mantém como referência uma margem bruta de aproximadamente 35% no futuro.
Margem futura chega a 44%
Um dos indicadores mais relevantes para acompanhar a evolução da operação é a margem REF, que considera o resultado esperado dos exercícios futuros.
No trimestre, ela atingiu 44%.
A diferença entre a margem atual e a margem dos empreendimentos futuros ajuda a explicar por que a administração espera uma melhora adicional da rentabilidade nos próximos balanços.
A lógica é relativamente simples: empreendimentos contratados com preços mais altos e custos controlados passam gradualmente a reconhecer receita conforme as obras avançam.
Se essa convergência ocorrer como planejado, a margem contábil atual tende a se aproximar da rentabilidade já contratada no estoque.
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Resia: a parte mais difícil da reestruturação
Enquanto a MRV Incorporação apresentou melhora, a Resia continua sendo o principal problema do grupo.
A operação americana registrou prejuízo de US$ 117,4 milhões no trimestre, queda de 16,8% na comparação anual, ainda fortemente afetada pelo impairment.
A companhia informou que ainda possui aproximadamente US$ 360 milhões em ativos a serem vendidos, considerando um empreendimento próprio, participações e a fábrica de pré-moldados.
A venda desses ativos é estratégica porque pode acelerar a redução da dívida consolidada.
Após as transações anunciadas, a MRV&Co estima que sua dívida líquida consolidada caia de aproximadamente R$ 5,9 bilhões para R$ 4,6 bilhões.
A diferença de cerca de R$ 1,3 bilhão é um dos principais elementos a serem monitorados nos próximos trimestres.
Desalavancagem passa a ser o principal indicador
A geração de caixa ajustada e consolidada foi de R$ 70 milhões no segundo trimestre.
Embora positiva, ela precisa ser analisada em conjunto com o nível de endividamento.
A dívida líquida de R$ 5,9 bilhões ainda é elevada e torna a redução da alavancagem uma prioridade estratégica.
Nesse contexto, a venda dos ativos da Resia não representa apenas uma saída de uma operação deficitária. Ela também é uma tentativa de transformar ativos imobiliários em caixa e reduzir o custo financeiro do grupo.
A administração afirmou que continuará vendendo ativos até alcançar um ponto em que a operação da Resia possa ser definitivamente descontinuada.
Luggo e Urba têm peso menor, mas completam o quadro
As demais operações apresentaram resultados distintos.
A Luggo registrou prejuízo de R$ 9,9 milhões no trimestre.
Já a Urba apresentou lucro de R$ 800 mil.
Diante dos números consolidados, porém, o comportamento dessas duas empresas tem impacto significativamente menor do que os movimentos da MRV Incorporação e da Resia.
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O que o investidor precisa acompanhar daqui para frente
O segundo trimestre deixa uma agenda bastante clara para MRVE3.
1. Velocidade da saída da Resia: quanto mais rápido os ativos forem vendidos, menor tende a ser o período de exposição do grupo aos resultados negativos da operação americana.
2. Redução da dívida: a passagem de R$ 5,9 bilhões para algo próximo de R$ 4,6 bilhões será fundamental para avaliar se a estratégia de venda de ativos está efetivamente fortalecendo o balanço.
3. Margem da MRV: a evolução da margem bruta em direção aos 35% será um dos principais sinais de melhora operacional.
4. Margem REF: o patamar de 44% mostra o potencial de rentabilidade embutido nos empreendimentos futuros, mas esse indicador precisará se converter em margem efetivamente reconhecida nos resultados.
5. Resultado financeiro: com despesa líquida de R$ 393,2 milhões, a redução do custo financeiro é essencial para que a melhora operacional apareça com maior força no lucro consolidado.
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Por que isso importa
O balanço da MRV&Co não deve ser interpretado apenas pelo prejuízo de R$ 626 milhões.
O número é expressivo e não pode ser ignorado, principalmente porque o grupo ainda precisará concluir a saída da operação americana. Mas o resultado também revela uma mudança importante na composição do desempenho.
A operação brasileira está mais rentável e gerando caixa, enquanto a companhia utiliza a venda dos ativos americanos para reduzir a dívida e eliminar uma fonte recorrente de pressão sobre o balanço.
O risco, portanto, está concentrado na execução dessa transição.
Se a MRV conseguir vender os ativos restantes da Resia em condições próximas às projetadas e reduzir significativamente a dívida, a operação brasileira poderá passar a ter maior influência sobre o resultado consolidado.
Se novas perdas relevantes surgirem durante a liquidação dos ativos americanos, porém, parte dos ganhos operacionais poderá continuar sendo consumida pelo processo de saída.
O próximo passo do investidor, portanto, não é apenas olhar para o lucro ou prejuízo trimestral, mas verificar se a melhora da MRV Incorporação está sendo acompanhada por uma queda consistente da dívida e pelo encerramento efetivo da Resia.



