A Natura (NATU3) voltou a acender um sinal de alerta no mercado após divulgar um primeiro trimestre marcado por deterioração operacional, queda forte de rentabilidade e piora relevante no prejuízo.
A fabricante de cosméticos registrou prejuízo líquido de R$ 445 milhões no 1T26, quase três vezes acima das perdas de R$ 152 milhões registradas no mesmo período do ano passado.
O resultado veio acompanhado de um tom que começa a preocupar investidores: a companhia ainda fala em “sinais iniciais de melhora”, mas os números continuam mostrando pressão sobre margens, desaceleração comercial e dificuldades na reconstrução da operação da Avon.
As ações encerraram o pregão em queda de 1,8%, cotadas a R$ 10,50, em mais uma sessão negativa para um papel que já perdeu grande parte do valor de mercado desde o auge pós-pandemia.
O dado que mais preocupa o mercado não foi o prejuízo
Apesar do prejuízo elevado, o ponto que mais chamou atenção no balanço foi o colapso da geração operacional.
O Ebitda recorrente despencou 55,7% na comparação anual, para R$ 346 milhões — abaixo da expectativa média do mercado, que projetava cerca de R$ 430 milhões, segundo dados da LSEG.
A receita líquida somou R$ 4,75 bilhões entre janeiro e março, queda de 7,7% em relação ao mesmo período de 2025.
Na prática, o balanço mostrou um problema que o mercado costuma punir rapidamente: queda simultânea de receita e margem operacional.
Esse tipo de deterioração normalmente indica perda de eficiência comercial, dificuldade de repasse de custos e enfraquecimento da capacidade de geração de caixa.
Avon continua sendo o centro da crise operacional
A própria Natura admitiu que o desempenho mais fraco veio das marcas Natura e Avon no Brasil.
O relançamento da Avon começou apenas em meados de março e ainda não conseguiu compensar a perda de tração operacional acumulada nos últimos trimestres.
O problema vai muito além de marketing.
A empresa reconheceu redução no número e na atividade de consultoras menos produtivas, um sinal relevante para investidores porque evidencia desgaste estrutural no modelo tradicional de venda direta — especialmente em regiões mais dependentes do consumo popular.
O impacto foi ainda mais forte no Nordeste, região onde a Natura possui elevada exposição histórica e onde a penetração do canal porta a porta costuma ser maior.
Segundo a companhia, o sell-in — vendas para consultoras e varejistas — permaneceu pressionado pela desaceleração do consumo.
Já o sell-out — venda ao consumidor final — apresentou melhora no fim do trimestre, o que pode indicar alguma estabilização gradual da demanda.
O mercado, porém, ainda parece longe de comprar totalmente essa tese de recuperação.
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O problema da Natura hoje é execução
Durante anos, a tese da Natura foi baseada em expansão, aquisição internacional e fortalecimento de marcas.
Agora, o foco mudou completamente.
O mercado passou a monitorar:
- recuperação de margens;
- eficiência operacional;
- produtividade das consultoras;
- geração de caixa;
- capacidade real de recuperação da Avon.
Isso acontece porque empresas em turnaround costumam consumir tempo, capital e margem antes de conseguirem estabilizar a operação.
E quando os sinais de recuperação demoram a aparecer nos números, investidores passam a reduzir o prêmio pago pelas ações.
América Latina continua fraca e recuperação segue lenta
Os desafios não ficaram restritos ao Brasil.
Na América Latina, excluindo Brasil e Argentina, a Natura afirmou que o crescimento “segue ofuscado pela retomada lenta”.
Na região hispânica, a receita caiu 1,1%, acompanhada também por compressão de margens.
O dado reforça que a companhia ainda enfrenta dificuldade para recuperar ritmo comercial mesmo após anos de simplificação operacional e reestruturação do grupo.
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O ponto que muitos investidores iniciantes ignoram
Um dos erros mais comuns no mercado é acreditar que marcas fortes automaticamente significam empresas fortes.
No caso da Natura, o problema atual envolve uma combinação delicada:
- pressão operacional;
- perda de eficiência do canal de vendas;
- integração complexa da Avon;
- desaceleração do consumo;
- margens pressionadas;
- dificuldade de retomada comercial.
Ou seja: a empresa continua dona de marcas extremamente conhecidas, mas isso sozinho não garante rentabilidade nem valorização das ações.
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O que o mercado quer ver agora
A Natura afirmou que já observa sinais iniciais promissores nas métricas da Avon e vendas acima das expectativas para novos produtos.
Mas o mercado tende a exigir mais do que discurso de recuperação.
Os próximos trimestres precisarão mostrar:
- melhora consistente das margens;
- retomada do crescimento orgânico;
- avanço operacional da Avon;
- estabilização da geração de caixa;
- recuperação sustentável da produtividade comercial.
Enquanto isso não aparecer de forma concreta nos números, NATU3 tende a continuar negociando sob forte desconfiança do mercado.








