Editorial afirma que ministros transformaram julgamento sobre investigação de Alexandre de Moraes em uma disputa de relatorias e questões processuais e cobra reação do Senado caso o Supremo não avance sobre o caso
O Estadão publicou um duro editorial nesta quarta-feira 16, sobre a sessão do Supremo Tribunal Federal que terminou sem uma decisão sobre a abertura de investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Para o jornal, o episódio expôs uma deterioração institucional dentro da própria Corte e levou o STF a um ponto de perda de credibilidade que, segundo sua avaliação, “nem o mais obstinado de seus detratores poderia desejar”.
Sob o título “Espetáculo degradante no Supremo”, o editorial sustenta que a longa sessão foi marcada por confrontos, acusações entre ministros e discussões processuais que, na interpretação do jornal, afastaram o plenário da questão que considerava central: decidir se os elementos relacionados a Moraes deveriam ser investigados.
“Vitória” da ala pró-Moraes, segundo o Estadão
A crítica mais contundente do editorial está na interpretação de que o resultado da sessão teria favorecido os ministros que, na visão do jornal, atuaram para evitar o exame imediato da investigação.
O Estadão chama Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino, além de Moraes, de “turma chicaneira pró-Moraes” e afirma que a interrupção do julgamento representou uma “vitória” desse grupo.
Na avaliação do jornal, a discussão de questões preliminares teria funcionado como mecanismo de adiamento da análise sobre a abertura de uma investigação — que, ressalta o editorial, seria apenas uma investigação, e não uma condenação.
“Tudo o que se viu ontem foi pura chicana”, afirma o texto.
A expressão é uma avaliação editorial do Estadão sobre a condução do episódio.
O mérito ficou em segundo plano
O jornal concentra parte importante de sua crítica no fato de que as mensagens atribuídas a Moraes e Vorcaro não foram efetivamente examinadas durante a sessão.
Segundo o editorial, os ministros discutiram relatorias, ritos e questões sobre o objeto dos procedimentos, mas não enfrentaram o conteúdo das dezenas de mensagens mencionadas no caso.
Para o Estadão, essa inversão de prioridades é justamente o problema: diante da gravidade das suspeitas, a discussão processual teria ocupado o espaço que deveria ser destinado à análise do caso concreto.
A crítica não é apresentada pelo jornal como uma simples divergência jurídica. O editorial interpreta a sequência como uma tentativa de evitar, naquele momento, o escrutínio sobre Moraes.
Bate-boca expôs conflito dentro da Corte
O editorial também transforma os confrontos entre ministros em um dos principais elementos de sua análise.
O jornal destaca o ataque de Alexandre de Moraes a André Mendonça, durante o qual os dois discutiram sobre a relação com a Polícia Federal e houve referências à existência de uma “PF paralela” para monitorar ministros.
Outro episódio destacado envolve Gilmar Mendes e Flávio Dino nas críticas dirigidas a Edson Fachin.
Segundo o Estadão, os ministros chegaram a questionar a forma como Fachin assumiu a relatoria do procedimento relacionado a Moraes e fizeram referência a um expediente associado ao período da ditadura militar.
O editorial considera esse episódio especialmente grave por envolver o próprio presidente do Supremo.
Cármen Lúcia e o “mal-estar cívico”
A manifestação de Cármen Lúcia é apresentada pelo Estadão como o contraponto dentro da própria Corte.
A ministra pediu desculpas à população pelo que chamou de “mal-estar cívico” provocado pelo Supremo e afirmou estar “envergonhada” com o espetáculo protagonizado por alguns de seus colegas.
Para o editorial, a declaração tem um significado institucional particular porque partiu de uma ministra do próprio STF, e não de um crítico externo da Corte.
O jornal usa a manifestação para reforçar sua tese de que o episódio ultrapassou uma divergência jurídica e atingiu a imagem pública do tribunal.
Crítica a Nunes Marques
O editorial também critica a decisão de Kassio Nunes Marques de se declarar impedido.
O Estadão considera inadequada a justificativa relacionada à sua atuação no Tribunal Superior Eleitoral e sustenta que a Constituição permite o exercício simultâneo das funções de ministro do STF e do TSE.
O jornal classifica a decisão como uma “barbaridade” e observa que o ministro deixou a sessão.
Estadão rejeita explicação de Moraes
Outro ponto importante do editorial é a rejeição à ideia de que as críticas ao Supremo sejam simplesmente uma reação de adversários políticos ou de “golpistas ressentidos”.
O jornal sustenta que a contestação ao comportamento da Corte também parte de segmentos da sociedade civil que, segundo sua própria avaliação, possuem posições democráticas e questionam a atuação do tribunal por razões institucionais.
Na interpretação do Estadão, portanto, o problema não estaria restrito à disputa política em torno de Moraes, mas envolveria a capacidade do Supremo de permitir o escrutínio de seus próprios integrantes.
O alerta sobre a legitimidade do Supremo
É nesse ponto que o editorial amplia sua crítica.
O Estadão afirma que a autoridade do Judiciário depende da legitimidade construída cotidianamente por seus integrantes. Por isso, na avaliação do jornal, uma eventual decisão do Supremo de não investigar Moraes teria consequências que ultrapassariam o processo específico.
O editorial chega a afirmar que, nesse cenário, o STF poderia deixar de ser percebido como um Poder da República e passar a ser visto como “uma extensão do escritório de advocacia da família do ministro”.
Trata-se da formulação mais severa do texto e de uma avaliação política e institucional expressa pelo próprio jornal.
Estadão cobra atuação do Senado
A conclusão do editorial desloca a responsabilidade para o Congresso.
O Estadão afirma que, se o Supremo decidir não investigar Moraes, caberia ao Senado exercer seu papel constitucional de controle sobre ministros da Corte.
O jornal defende explicitamente que os senadores deveriam “cassar o sr. Alexandre de Moraes”, apresentando essa medida como resposta à hipótese de o STF não permitir o escrutínio do ministro.
Assim, o editorial não se limita a criticar o comportamento dos ministros durante a sessão. Ele estabelece uma consequência institucional para aquilo que considera uma eventual blindagem de Moraes.
A crítica central do editorial
O ponto central do posicionamento do Estadão é que o problema não estaria apenas no fato de o julgamento ter terminado sem uma decisão, mas na maneira como a Corte conduziu a discussão.
Na leitura do jornal, questões processuais, disputas sobre relatoria e confrontos pessoais acabaram ocupando o centro de uma sessão que deveria examinar se as suspeitas envolvendo Moraes mereciam investigação.
Ao colocar Cármen Lúcia, as acusações entre ministros, a ausência de análise das mensagens e a possibilidade de atuação do Senado dentro de uma mesma narrativa, o editorial transforma o episódio em uma crítica mais ampla à capacidade do STF de exercer controle sobre seus próprios integrantes.
A conclusão do Estadão é inequívoca: se a Corte não enfrentar o caso Moraes, a crise deixará de ser apenas uma disputa interna do Supremo e passará, na avaliação do jornal, a atingir a própria legitimidade institucional do Judiciário.







