Governo desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade institucional no primeiro semestre, maior valor para o período desde 2009; na pesquisa Veritá, Flávio Bolsonaro aparece com 47,3% contra 42% do presidente
O governo Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao ano eleitoral de 2026 com um recorde de gastos em publicidade institucional desde 2009, mas a nova fotografia da corrida presidencial mostra que o investimento não se traduz, até o momento, em uma liderança eleitoral incontestável.
No primeiro semestre, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade institucional. O valor é o maior registrado para um primeiro semestre desde o início da série histórica da Secom, em 2009.
Além do dinheiro já desembolsado, outros R$ 584,7 milhões foram empenhados para futuras ações publicitárias em 2026, elevando a dimensão da estrutura de comunicação mobilizada pelo governo no ano eleitoral.
O dado ganha peso político quando confrontado com a pesquisa do Instituto Veritá divulgada nesta sexta-feira (21).
Em um eventual segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece com 47,3% das intenções de voto, contra 42% de Lula (PT). A diferença é de 5,3 pontos percentuais.
Não é possível estabelecer, a partir da pesquisa, uma relação de causa e efeito entre publicidade e intenção de voto. Mas os dois números formam uma fotografia relevante para a disputa de 2026: o governo amplia a comunicação a níveis recordes enquanto a eleição permanece aberta e o principal adversário aparece à frente de Lula no confronto direto testado pelo Veritá.
O recorde de publicidade
Os R$ 255,3 milhões pagos no primeiro semestre representam um aumento expressivo em relação ao mesmo período de anos anteriores.
Segundo levantamento baseado em dados da Secom, do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) e do Siga Brasil, o valor é 57% superior, em termos reais, ao registrado no primeiro semestre de 2025.
Na comparação com o primeiro semestre de 2022, último ano eleitoral presidencial do governo Jair Bolsonaro, o montante de 2026 também é substancialmente maior.
Desde o início do atual mandato, os desembolsos da publicidade institucional da Presidência já chegam a aproximadamente R$ 1,1 bilhão, segundo o levantamento.
É importante observar que os números se referem à publicidade institucional da Presidência por meio da Secom e não representam toda a publicidade realizada por ministérios e demais órgãos federais.
Ainda assim, o tamanho do gasto coloca a comunicação oficial no centro da estratégia política do governo em 2026.
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O dinheiro cresce, mas a vantagem eleitoral não aparece
É justamente nesse ponto que a pesquisa Veritá cria um contraste que merece atenção.
No primeiro turno, Lula aparece com 39,3%, enquanto Flávio Bolsonaro registra 39,1%.
São apenas 0,2 ponto percentual de diferença, muito abaixo da margem de erro de dois pontos percentuais.
Na prática, os dois aparecem tecnicamente empatados.
O cenário muda quando o instituto coloca os dois diretamente em uma simulação de segundo turno.
Flávio Bolsonaro: 47,3%
Lula: 42%
Brancos e nulos: 6,1%
Não sabem ou não responderam: 4,6%
A diferença entre os dois chega a 5,3 pontos percentuais.
O resultado não permite afirmar que a publicidade do governo seja responsável pelo desempenho de Lula ou pela vantagem de Flávio.
Mas permite uma pergunta legítima sobre a estratégia eleitoral do Planalto:
quanto mais dinheiro em comunicação é capaz de produzir quando a percepção do eleitor continua sendo determinada por fatores que vão muito além da propaganda?
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A publicidade pode comprar atenção, mas não necessariamente voto
A comunicação institucional tem funções específicas: divulgar programas, serviços, campanhas públicas e ações do governo.
Mas, em um ambiente eleitoral, a exposição pública também passa a ter relevância política.
O recorde de gastos, portanto, não deve ser ignorado quando se analisa a disputa presidencial.
O ponto central é que a expansão da publicidade não eliminou a competitividade eleitoral.
O governo possui uma estrutura de comunicação robusta, mas a pesquisa Veritá mostra Lula praticamente empatado com Flávio no primeiro turno e atrás no segundo.
Isso significa que o eleitor pode receber a mensagem do governo sem necessariamente transformar essa exposição em intenção de voto.
É uma diferença fundamental.
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A disputa pelo eleitor acontece em outra arena
A estratégia de comunicação do governo também mudou de forma significativa nos últimos anos.
A internet ganhou espaço na distribuição das verbas publicitárias, em uma tentativa de alcançar um eleitor que passou a consumir informação política cada vez mais por redes sociais, plataformas de vídeo e outros ambientes digitais.
Essa transformação é especialmente importante em 2026.
A disputa eleitoral não ocorre apenas na televisão ou no rádio.
Ela acontece simultaneamente em Instagram, YouTube, TikTok, Facebook, sites, aplicativos de mensagens e mecanismos de busca.
O governo pode ampliar sua presença nesses ambientes, mas enfrenta um problema estrutural: o eleitor não recebe apenas a mensagem oficial.
Ele também recebe críticas, contrapontos, vídeos de adversários, notícias negativas e opiniões de influenciadores.
A comunicação se tornou uma disputa permanente pela atenção.
R$ 584,7 milhões ainda empenhados
O recorde não termina nos R$ 255,3 milhões já desembolsados.
O governo também possui R$ 584,7 milhões empenhados para ações publicitárias futuras em 2026.
Isso significa que a estrutura de comunicação ainda tem capacidade financeira relevante para atuar durante o restante do ano.
O volume chama atenção justamente porque ocorre em um período no qual a corrida presidencial começa a ganhar intensidade.
A partir daqui, cada campanha buscará transformar exposição em voto.
E o governo terá recursos para ampliar ainda mais a divulgação de suas ações.
A questão será saber se esse aumento de presença será suficiente para modificar uma disputa que, segundo o Veritá, começa praticamente empatada entre Lula e Flávio no primeiro turno.
Flávio aparece como principal adversário
Outro aspecto relevante do levantamento é que Flávio não aparece apenas competitivo contra Lula.
Nos cenários testados pelo Veritá, o senador também lidera confrontos de segundo turno contra outros nomes da direita e do centro.
Contra Pablo Marçal, Flávio registra 44,7% contra 9%.
Contra Romeu Zema, 46,5% contra 6,8%.
Contra Ronaldo Caiado, 46,5% contra 8,9%.
Contra Renan Santos, 46,4% contra 8,1%.
São cenários que possuem grande quantidade de eleitores indecisos ou que optam por branco e nulo e, portanto, precisam ser interpretados com cautela.
Ainda assim, o levantamento reforça a posição de Flávio como o nome mais competitivo da oposição nos cenários testados pelo instituto.
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Marçal empata tecnicamente com Lula
A pesquisa também apresenta um resultado que merece atenção.
No confronto entre Pablo Marçal e Lula, o empresário aparece numericamente à frente, com 43,6%, contra 42,7% do presidente.
A diferença de 0,9 ponto percentual está dentro da margem de erro de dois pontos e caracteriza empate técnico.
Já contra Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos, Lula aparece numericamente à frente.
Contra Zema, o presidente tem 41,2% contra 25%.
Contra Caiado, 40,4% contra 23,7%.
Contra Renan Santos, 40,5% contra 16,2%.
A fotografia mostra, portanto, que a competitividade da oposição varia fortemente de acordo com o candidato apresentado.
Veritá não é o único retrato da eleição
A leitura da pesquisa precisa ser acompanhada de outros levantamentos.
No mesmo período, o Datafolha apresentou cenário diferente: Lula com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. No primeiro turno, o instituto registrou Lula com 39% e Flávio com 33%.
A diferença entre as pesquisas reforça um ponto importante: não existe, neste momento, uma fotografia única da eleição.
O Veritá coloca Flávio à frente.
O Datafolha coloca Lula à frente.
O que os diferentes levantamentos têm em comum é a constatação de que a disputa entre os dois principais nomes permanece relevante e que a eleição está longe de estar definida.
O verdadeiro teste começa agora
O dado mais interessante da combinação entre os números de publicidade e a pesquisa eleitoral não é afirmar que o governo “gastou e não conseguiu votos”.
Seria uma conclusão que os dados não permitem.
O que os números permitem mostrar é algo mais interessante:
o governo Lula ampliou os gastos com publicidade institucional até atingir um recorde histórico para o primeiro semestre, mas isso ocorre em um momento em que a disputa presidencial continua aberta e, no levantamento Veritá, Flávio Bolsonaro aparece à frente no segundo turno.
A máquina de comunicação pode aumentar o alcance das mensagens do governo.
Pode aumentar a frequência da exposição.
Pode ocupar mais espaços.
Mas não consegue controlar sozinha a percepção que o eleitor forma sobre economia, preços, segurança, impostos, serviços públicos, corrupção, oposição e futuro do país.
É aí que está o verdadeiro teste eleitoral de Lula.
Porque o recorde de gastos em publicidade é um fato. A transformação desse investimento em votos, porém, ainda é uma incógnita.
E a pesquisa Veritá mostra que, pelo menos nesta fotografia, o dinheiro gasto em comunicação ainda não produziu uma vantagem eleitoral capaz de tirar Flávio Bolsonaro da disputa — e, no segundo turno testado pelo instituto, o senador aparece na frente.
Metodologia da pesquisa Veritá
O Instituto Veritá entrevistou 3.840 eleitores em todo o país entre 16 e 20 de agosto de 2026.
A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
O levantamento foi realizado com recursos próprios do instituto e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04006/2026.



