Braskem quebra a barreira dos US$ 10 bilhões em dívida: o que a recuperação extrajudicial revela sobre a Petrobras, a BRKM5 e a indústria brasileira

Uma das maiores petroquímicas do mundo voltou a registrar lucro bilionário, mas precisou recorrer à Justiça para reorganizar US$ 10,9 bilhões; por trás do pedido estão alavancagem extrema, credores internacionais, mudança no controle, passivos de Maceió e uma possível conta para os acionistas

A Braskem (BRKM5) chegou a um ponto que, até pouco tempo atrás, parecia distante para uma das empresas industriais mais relevantes da América Latina: precisou recorrer à recuperação extrajudicial para tentar reorganizar cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas financeiras.

O anúncio, confirmado pela companhia na segunda-feira (24), chama atenção pelo tamanho do passivo.

Mas existe um detalhe ainda mais importante — e que ajuda a explicar por que o caso é muito maior do que um simples pedido de renegociação de dívida:

a Braskem voltou a registrar lucro bilionário justamente antes de pedir proteção para reestruturar sua dívida.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 3,33 bilhões, revertendo o prejuízo de R$ 267 milhões do mesmo período do ano anterior. O EBITDA recorrente chegou a R$ 5,25 bilhões e a geração operacional de caixa voltou a ser positiva, em R$ 1,93 bilhão.

Mesmo assim, no fim de junho, a dívida líquida ajustada permanecia em US$ 9,4 bilhões, enquanto a alavancagem alcançava 6,74 vezes o EBITDA recorrente dos últimos 12 meses.

É justamente aí que está o verdadeiro problema da Braskem.

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A empresa voltou a lucrar. O balanço, porém, continua pesado demais

O resultado do segundo trimestre poderia, isoladamente, transmitir uma impressão de recuperação.

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Mas olhar apenas para o lucro seria insuficiente.

A Braskem conseguiu gerar resultado operacional relevante em um trimestre favorecido pela melhora dos spreads petroquímicos internacionais. Isso ajudou a elevar o EBITDA e recuperar a geração de caixa.

O problema é que o passivo acumulado continua em uma escala muito superior à capacidade de desalavancagem apresentada pelo balanço.

A companhia terminou junho com dívida líquida ajustada de US$ 9,4 bilhões e alavancagem de 6,74 vezes.

Portanto, a questão não é simplesmente se a Braskem consegue voltar a dar lucro.

A questão é:

quanto desse lucro consegue efetivamente virar caixa para reduzir uma dívida dessa magnitude?

Essa diferença é fundamental para entender a crise.

US$ 10,9 bilhões: o número que muda tudo

O pedido protocolado pela Braskem envolve aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias, equivalentes a cerca de R$ 56 bilhões.

O processo foi apresentado com apoio de credores que representam 39,6% dos créditos sujeitos à recuperação. A partir daí, a companhia entra em uma janela de aproximadamente 90 dias para negociar a adesão necessária ao plano definitivo.

A recuperação extrajudicial não significa que a Braskem tenha parado de funcionar.

Pelo contrário.

O objetivo é criar um ambiente jurídico protegido para que a empresa possa renegociar suas obrigações financeiras sem que cobranças individuais comprometam o processo de reestruturação.

Mas existe um teste decisivo pela frente:

39,6% não são suficientes para encerrar a negociação.

A companhia terá de conquistar apoio adicional entre os credores para transformar o acordo preliminar em uma reestruturação efetiva.

O que realmente está em jogo: quem vai absorver a conta?

Essa é uma das perguntas que o investidor da BRKM5 precisa acompanhar.

O plano em discussão inclui alongamento de vencimentos, carência, capitalização de juros e possibilidade de uma oferta de ações. A eventual operação de capital pode alterar a estrutura acionária da companhia.

E existe uma consequência que não pode ser ignorada:

se parte da dívida for convertida em ações ou se houver uma nova emissão relevante, os atuais acionistas poderão sofrer diluição.

Isso ainda não significa que a diluição necessariamente ocorrerá nos termos finais.

Significa que ela está entre as possibilidades que o mercado precisa precificar.

Para quem olha apenas o lucro de R$ 3,33 bilhões, essa é uma informação decisiva.

Uma empresa pode voltar a apresentar lucro e, simultaneamente, estar negociando uma operação capaz de alterar profundamente sua estrutura de capital.

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A Braskem não está negociando apenas com bancos brasileiros

Outro aspecto que aumenta a complexidade do caso é o perfil dos credores.

A dívida inclui uma parcela relevante de títulos emitidos nos mercados internacionais. Entre os credores e instrumentos listados aparecem bondholders e instituições financeiras estrangeiras.

A Reuters identificou, entre os maiores créditos aderentes, títulos emitidos pela Braskem Netherlands Finance, enquanto o BNY Mellon aparece entre os principais credores não aderentes.

Isso muda a natureza da negociação.

Não se trata simplesmente de sentar com bancos brasileiros para alongar empréstimos.

A Braskem precisa construir uma solução com investidores internacionais, detentores de bonds, bancos e diferentes classes de credores, cada qual com interesses e instrumentos jurídicos próprios.

E quanto maior a participação dos bondholders na dívida, maior tende a ser a importância da negociação internacional para o futuro da companhia.

O detalhe que pode definir o poder de cada credor

Há outro ponto pouco perceptível para quem olha apenas o anúncio da recuperação.

A forma como os credores serão organizados em classes pode ser determinante para o resultado da votação.

Informações divulgadas sobre a estrutura da dívida indicam que bondholders internacionais concentram parcela expressiva dos créditos sujeitos à reestruturação. Caso determinados grupos sejam classificados conjuntamente, sua capacidade de influência na aprovação do plano pode ser muito maior.

Ou seja:

não basta saber quanto a Braskem deve. É preciso saber a quem deve, em qual instrumento e como esses credores serão agrupados.

É essa engenharia que poderá determinar quem terá maior poder para negociar as condições finais.

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E aqui aparece a Petrobras

A recuperação da Braskem também expõe diretamente a Petrobras (PETR4).

Depois da mudança na estrutura acionária ocorrida em 2026, a Petrobras manteve 36,15% do capital total da Braskem e 47,03% das ações com direito a voto. A estatal passou a compartilhar o controle da companhia com o fundo Shine I, ligado à IG4, por meio de um novo acordo de acionistas.

Esse detalhe é central.

A Petrobras não é apenas uma investidora financeira distante.

Ela participa da estrutura de controle da Braskem.

Por isso, qualquer solução que envolva aporte de capital, aumento de capital, reorganização societária ou mudança relevante na estrutura de controle terá importância também para a estatal.

Isso não significa que a Petrobras esteja obrigada a resgatar a Braskem.

Até aqui, o que existe é uma estrutura societária na qual a Petrobras possui participação relevante e compartilha o controle.

Mas quanto maior for a necessidade de capital da petroquímica, maior será a pressão para que os acionistas estratégicos definam qual será seu papel.

MAIS INFORMAÇÃO:

O paradoxo da Braskem: lucro bilionário e dívida gigantesca

É justamente essa combinação que torna a Braskem um caso emblemático.

No segundo trimestre:

Lucro líquido: R$ 3,33 bilhões.

EBITDA recorrente: R$ 5,25 bilhões.

Receita líquida: R$ 21,72 bilhões.

Geração operacional de caixa: R$ 1,93 bilhão.

Ao mesmo tempo:

Dívida líquida ajustada: US$ 9,4 bilhões.

Alavancagem: 6,74 vezes.

O contraste mostra por que uma fotografia de apenas um trimestre pode ser enganosa.

A Braskem melhorou operacionalmente.

Mas a melhora operacional ainda não resolveu a estrutura financeira.

A crise não começou agora

A recuperação extrajudicial é o resultado de uma deterioração que vinha sendo construída há anos.

A petroquímica enfrentou um prolongado ciclo de margens pressionadas, excesso de oferta internacional, concorrência externa e dificuldades para competir em custos.

O problema ficou ainda mais grave porque a companhia acumulou dívida enquanto a indústria passava por um período de spreads desfavoráveis.

O balanço de junho mostra a consequência dessa combinação.

A Braskem possui capacidade industrial e ativos relevantes, mas precisa gerar caixa suficiente para sustentar uma estrutura de capital extremamente alavancada.

E esse é um problema que uma simples melhora trimestral de preços não resolve.

O outro lado da crise: Maceió

Existe ainda um passivo que não pode ser apagado da história da Braskem: o desastre relacionado à exploração de sal-gema em Maceió.

O afundamento do solo provocou a desocupação de áreas da cidade e afetou milhares de famílias.

Nesta semana, um laudo da Polícia Federal estimou em aproximadamente R$ 40 bilhões o prejuízo à União associado ao desastre, enquanto as investigações apontam responsabilidades que são contestadas pela companhia.

É importante fazer uma distinção.

A recuperação extrajudicial anunciada agora está concentrada nas obrigações financeiras abrangidas pelo plano. A Braskem afirma que o processo não interrompe pagamentos a fornecedores e empregados nem elimina suas obrigações relacionadas às demais partes interessadas.

Ainda assim, para o investidor, o passivo de Maceió permanece relevante porque representa uma dimensão adicional de risco jurídico, financeiro e reputacional.

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E a Braskem Idesa também está em recuperação

A situação ganha uma camada internacional adicional.

Na semana passada, a Braskem Idesa, joint venture mexicana da Braskem com o grupo Idesa, apresentou pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, envolvendo aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívidas.

Assim, a crise não está concentrada em uma única operação brasileira.

Existe pressão financeira também dentro da estrutura internacional do grupo.

Isso torna ainda mais importante a reestruturação do balanço consolidado e a capacidade de separar as operações que geram caixa das que consomem capital.

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A verdadeira crise pode ser a competitividade brasileira

Esse é talvez o ponto mais importante que passa despercebido quando a discussão fica restrita à BRKM5.

A Braskem é uma das principais empresas da cadeia petroquímica brasileira.

Se a empresa perde competitividade estrutural para produtores estrangeiros, o problema não termina no preço das ações.

A petroquímica fornece insumos para cadeias que passam por embalagens, construção, alimentos, produtos químicos, agronegócio, bens de consumo e diversas outras atividades industriais.

Portanto, uma Braskem financeiramente pressionada também representa uma discussão sobre a competitividade da indústria brasileira.

O Brasil precisa importar determinados insumos quando a produção doméstica perde competitividade?

A indústria brasileira consegue competir com produtores que têm acesso a matéria-prima mais barata?

E até que ponto uma estrutura de custos elevada pode ser compensada apenas por ciclos favoráveis de preços internacionais?

São perguntas que a recuperação extrajudicial não responde.

Mas o processo obriga o mercado a enfrentá-las.

A recuperação extrajudicial virou o novo instrumento das grandes empresas

O caso Braskem também acontece em um ambiente de forte crescimento das reestruturações corporativas.

Empresas de grande porte passaram a recorrer à recuperação extrajudicial como alternativa à recuperação judicial tradicional, buscando negociar diretamente com credores e evitar uma ruptura operacional mais severa.

O ambiente de juros elevados e crédito restrito é um dos fatores por trás desse movimento. Entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, os pedidos de recuperação judicial no Brasil cresceram 65,8%, segundo levantamento citado pela Folha.

A Braskem, entretanto, leva essa tendência a outro patamar.

Não são alguns bilhões de reais de uma companhia de médio porte.

São aproximadamente US$ 10,9 bilhões de uma das maiores empresas petroquímicas da América Latina.

O que pode acontecer com a BRKM5?

O investidor precisa separar três possibilidades.

1. Reestruturação bem-sucedida

Se a Braskem conseguir alongar os vencimentos, reduzir a pressão de curto prazo e preservar sua geração de caixa, a recuperação extrajudicial pode representar o início de uma reconstrução financeira.

Nesse cenário, a melhora operacional poderia finalmente começar a aparecer na redução da alavancagem.

2. Capitalização e diluição

Se a companhia precisar de uma oferta de ações ou conversão de dívida em participação acionária, o balanço poderá ficar mais saudável.

Mas o custo poderá ser pago, em parte, pelos atuais acionistas por meio da diluição.

Essa possibilidade está entre os elementos que precisam ser acompanhados no plano definitivo.

3. Reestruturação insuficiente

Se o novo plano não produzir uma redução suficiente da pressão financeira, a companhia poderá continuar dependente de novas renegociações, venda de ativos ou aportes.

Nesse cenário, o risco para acionistas e credores aumenta.

É justamente por isso que os próximos 90 dias são tão importantes.

O relógio começou a correr

A Braskem conseguiu apresentar o pedido com apoio de 39,6% dos créditos sujeitos ao plano.

Agora precisa ampliar esse apoio.

Durante aproximadamente três meses, a companhia terá de convencer credores que ainda não aderiram de que a proposta é melhor do que as alternativas disponíveis.

Essa é uma negociação em que tempo também é dinheiro.

Quanto mais longa a discussão, maior a incerteza sobre a estrutura de capital.

Quanto mais difícil for o acordo, maior poderá ser a pressão por concessões.

E quanto maior a necessidade de capital novo, maior poderá ser o impacto sobre os atuais acionistas.

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O que ninguém deveria olhar apenas no caso Braskem

A grande lição desse episódio não está no pedido de recuperação extrajudicial.

Está na diferença entre resultado operacional e solvência financeira.

A Braskem conseguiu registrar R$ 3,33 bilhões de lucro em um trimestre.

Mesmo assim, precisou pedir proteção para negociar US$ 10,9 bilhões.

Isso mostra que uma empresa pode continuar sendo operacionalmente relevante, vender bilhões, gerar EBITDA e ainda assim enfrentar uma crise profunda de estrutura de capital.

Lucro não é sinônimo de balanço saudável.

E é justamente essa distinção que o mercado precisa fazer agora.

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A conta chegou a uma empresa que ainda é estratégica

A Braskem não é uma companhia qualquer.

Ela está no centro da cadeia petroquímica brasileira, possui operações internacionais, tem participação relevante da Petrobras e agora está tentando reorganizar uma dívida de aproximadamente R$ 56 bilhões.

Ao mesmo tempo, enfrenta as consequências de um longo ciclo adverso na indústria, elevado endividamento, pressão competitiva, mudança no controle acionário, dificuldades da Braskem Idesa e o enorme passivo associado a Maceió.

O pedido de recuperação extrajudicial, portanto, não é o fim da Braskem.

Mas também não pode ser tratado como uma simples formalidade financeira.

É o reconhecimento de que a estrutura atual da companhia precisa ser redesenhada.

E essa reestruturação terá vencedores e perdedores.

Credores terão de decidir quanto estão dispostos a esperar.

Acionistas terão de descobrir quanto de sua participação poderá sobreviver a uma eventual capitalização.

A Petrobras terá de administrar sua posição estratégica.

E a própria Braskem terá de provar que consegue transformar melhora operacional em desalavancagem sustentável.

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O ponto central para o investidor

A pergunta mais importante, portanto, não é:

“A Braskem deu lucro?”

Ela deu.

A pergunta é:

“Quanto desse lucro será suficiente para tirar uma companhia com US$ 9,4 bilhões de dívida líquida ajustada e 6,74 vezes de alavancagem da zona de risco?”

A resposta dependerá do plano definitivo.

E, sobretudo, de quem aceitará pagar o preço da reconstrução financeira da Braskem.

É aí que está a verdadeira história por trás dos US$ 10,9 bilhões.

BRKM5: o que acompanhar agora

  • Adesão dos credores: os 39,6% iniciais ainda precisam crescer.
  • Plano definitivo: será o documento mais importante dos próximos meses.
  • Possível oferta de ações: pode reforçar o caixa, mas também diluir acionistas.
  • Conversão de dívida em ações: pode alterar a estrutura societária.
  • Petrobras: a posição da estatal será decisiva para o futuro da companhia.
  • Dívida líquida: a melhora operacional precisa começar a reduzir a alavancagem.
  • Braskem Idesa: a recuperação da subsidiária mexicana adiciona risco ao grupo.
  • Maceió: os passivos jurídicos e ambientais continuam relevantes.
  • Mercado petroquímico: spreads, matérias-primas e concorrência internacional serão determinantes.

A Braskem ainda tem ativos, escala, tecnologia e capacidade industrial para se recuperar. O problema é que agora precisa provar que tudo isso vale mais do que os US$ 10,9 bilhões que colocou sobre a mesa para renegociar.

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Lucas Lopes Lopes
Lucas Lopes Lopes
Jornalista cubro editorias de economia há 10 anos. Especializado em criptoativos e-mail: [email protected]
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