MPT impõe infraestrutura para ambulantes no Carnaval de SP e pressiona Prefeitura e Ambev por garantias trabalhistas

INVESTIDORES BRASIL

O MPT (Ministério Público do Trabalho) impõe recomendação formal à Prefeitura de São Paulo, às secretarias municipais de Cultura e Governo, à SPTuris e à Ambev (abev3) solicitando a adoção de medidas estruturais para garantir condições adequadas aos ambulantes credenciados que atuam no Carnaval de rua na região do Parque Ibirapuera.

A notificação atendeu a deputada estadual Ediane Maria do Nascimento (PSOL), que encaminhou uma representação ao Ministério Público do Trabalho.

A notificação foi expedida após denúncia de que parte dos trabalhadores atua sob condições consideradas precárias, com relatos de:

  • ausência de pontos de hidratação com água potável;
  • número insuficiente e condições inadequadas de banheiros químicos;
  • inexistência de espaços de convivência;
  • restrições quanto à entrada de alimentos próprios;
  • permanência noturna em filas para garantir acesso à área de venda.

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Embora a recomendação não imponha sanção imediata, o MPT pode adotar medidas administrativas ou judiciais em caso de descumprimento, incluindo ação civil pública e eventual aplicação de multa.

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Exclusividade comercial e pressão logística

Segundo dados da administração municipal, cerca de 15 mil ambulantes foram oficialmente cadastrados para atuar no Carnaval de São Paulo. A Ambev, patrocinadora oficial do evento, pagou R$ 30,2 milhões pela exclusividade na comercialização de bebidas durante os blocos de Carnaval realizados entre 7 e 22 de fevereiro.

O modelo combina três elementos relevantes:

  1. grande concentração de público;
  2. exclusividade contratual de fornecimento;
  3. limitação espacial para venda em áreas de alta demanda, como o entorno do Ibirapuera.

Na prática, ambulantes iniciam filas um ou dois dias antes da abertura dos portões, organizando-se em grupos para revezamento. Há relatos de trabalhadores que dormem na rua para garantir posição estratégica, além de menções à comercialização informal de lugares na fila.

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Condições relatadas pelos trabalhadores

Durante os blocos que reuniram artistas como Ivete Sangalo, Gloria Groove, Gretchen, Michel Teló e Pabllo Vittar, ambulantes relataram:

  • jornadas que começam ainda na madrugada;
  • alimentação limitada ou inexistente durante o expediente;
  • uso evitado de banheiros químicos por condições sanitárias;
  • necessidade de custear gelo e parte da logística;
  • falhas recorrentes em máquinas de pagamento por instabilidade de sinal.

Mesmo diante das dificuldades, o potencial de retorno financeiro é elevado. Segundo relatos colhidos no local, um investimento de R$ 2.000 pode gerar até R$ 5.000 em um dia de alta demanda, embora haja variações significativas conforme fluxo de público e condições operacionais.

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Para garantir vaga segundo falas dos ambulantes, eles começam a fila um ou dois dias antes do evento. A organização é feita pelos próprios trabalhadores, que se dividem em grupos de 15 a 20 pessoas para revezar o posto e assegurar um bom lugar. As portas abrem por volta das 7h.

O que o MPT exige

No documento encaminhado, o Ministério Público do Trabalho recomenda que o município ou a patrocinadora:

  • ofereçam centros de convivência para ambulantes;
  • instalem pontos de hidratação com água potável;
  • disponibilizem contêineres com banheiros separados por gênero e produtos de higiene;
  • garantam depósitos para guarda de mercadorias;
  • distribuam gratuitamente itens do ponto de venda (colete, boné, caixa térmica, guarda-sol, gelo, cercamento);
  • promovam capacitação de fiscais e ambulantes para segurança do trabalho.

O ponto central da recomendação é que, ainda que os ambulantes sejam autônomos, a estrutura de evento patrocinado com exclusividade comercial impõe responsabilidade compartilhada quanto às condições mínimas de trabalho.

Responsabilidade contratual vs. responsabilidade social

A Ambev declarou que cumpre rigorosamente as obrigações previstas no edital de patrocínio e atua em parceria com o município. A prefeitura e os órgãos municipais não haviam se manifestado até a publicação da reportagem original.

O debate jurídico envolve uma zona cinzenta:
ambulantes são trabalhadores autônomos, mas atuam dentro de um evento organizado, patrocinado e regulamentado pelo poder público.

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A questão que emerge é estrutural:

  • até que ponto a exclusividade comercial amplia a responsabilidade da patrocinadora?
  • qual é o dever do município ao organizar evento de grande porte com autorização formal de comércio?
  • a precariedade logística pode configurar violação indireta de direitos trabalhistas e sanitários?

Ponto de atenção institucional

O Carnaval de São Paulo movimenta centenas de milhões de reais em cadeia econômica informal e formal. A tensão entre liberdade econômica, exclusividade comercial e condições dignas de trabalho tende a crescer à medida que o evento se consolida como megaevento urbano.

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Se o MPT judicializar a questão, o caso poderá estabelecer precedente relevante sobre:

  • responsabilidade solidária em eventos patrocinados;
  • dever de infraestrutura mínima para trabalhadores autônomos;
  • limites do modelo de exclusividade comercial em espaço público.

O desfecho pode redefinir o equilíbrio entre organização privada, poder público e economia popular no maior evento de rua da capital paulista.

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Lucy Costa
Lucy Costa
Jornalista especializada em finanças e estatística. Você gosta de meus conteúdos? Entre em contato; email: [email protected]
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