IPCA-15, mercado de trabalho, juros, PCE e Jackson Hole concentram os principais testes para os bancos centrais, enquanto nova pesquisa coloca Flávio Bolsonaro à frente de Lula em um eventual segundo turno
A última semana de agosto coloca o mercado diante de uma combinação que vai muito além de uma tradicional agenda de indicadores econômicos.
Entre segunda-feira (24) e sábado (29), Brasil e Estados Unidos divulgarão dados de inflação, emprego e atividade, enquanto o Simpósio de Jackson Hole concentrará as atenções sobre os próximos passos do Federal Reserve.
No Brasil, o IPCA-15, a PNAD Contínua, o Novo Caged e os dados fiscais poderão alterar as expectativas para a Selic.
Nos Estados Unidos, PIB, PCE, mercado de trabalho e a comunicação do Federal Reserve podem mexer com os Treasuries, o dólar e os mercados emergentes.
Mas existe uma variável adicional que torna esta semana particularmente relevante para os ativos brasileiros: a eleição presidencial de 2026 começa a entrar cada vez mais diretamente na formação das expectativas econômicas e financeiras.
A pesquisa mais recente do Instituto Veritá, realizada entre 16 e 20 de agosto, mostra uma fotografia eleitoral que merece atenção do mercado: no primeiro turno, Lula aparece numericamente com 39,3%, contra 39,1% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno entre os dois, porém, Flávio passa à frente, com 47,3% contra 42% de Lula.
É uma diferença que muda a leitura do cenário.
A eleição deixou de ser apenas um evento político futuro e começa a se transformar em variável de risco para juros, câmbio e Bolsa.
A semana começa com o mercado tentando descobrir para onde vai a Selic
Na segunda-feira (24), o primeiro grande indicador doméstico será o Boletim Focus.
O relatório reúne as projeções do mercado para inflação, crescimento, câmbio e Selic e permite acompanhar se as expectativas estão melhorando ou piorando.
Para o investidor, entretanto, o número mais importante não será necessariamente a projeção de uma única semana.
O que importa é a direção.
Se as expectativas de inflação continuarem recuando, aumenta o espaço para uma política monetária menos restritiva.
Se permanecerem pressionadas, o Banco Central terá menos liberdade para acelerar a redução dos juros.
É justamente essa diferença entre inflação corrente e expectativas futuras que será testada pelos indicadores dos próximos dias.
IPCA-15 será o primeiro grande teste
Na quarta-feira (26), o IBGE divulga o IPCA-15 de agosto.
O indicador funciona como uma prévia do IPCA oficial e chega em um momento especialmente importante para as apostas sobre a Selic.
Um resultado abaixo do esperado poderia reforçar a percepção de que a inflação está perdendo força.
Mas o número cheio não contará toda a história.
O mercado deverá observar principalmente:
- inflação de serviços;
- alimentação;
- bens industriais;
- núcleos de inflação;
- componentes mais persistentes.
Um IPCA-15 baixo por fatores pontuais é muito diferente de uma desaceleração disseminada da inflação.
É a composição que poderá determinar a reação da curva de juros.
Emprego forte pode limitar o espaço para cortes
Na quinta-feira (27), o IBGE divulgará a PNAD Contínua, incluindo a taxa de desemprego.
O mercado não deverá olhar apenas para o desemprego.
Renda, ocupação e participação no mercado de trabalho também serão importantes.
Isso porque uma economia com inflação mais comportada, mas mercado de trabalho ainda forte, pode continuar sustentando consumo e serviços.
Nesse cenário, o Banco Central pode preferir avançar com cautela.
Por outro lado, se inflação e emprego mostrarem simultaneamente sinais de perda de força, aumenta o argumento para uma política monetária menos restritiva.
Na sexta-feira (28), o Novo Caged complementará essa fotografia.
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O mercado pode receber uma boa notícia e, ainda assim, não baixar os juros
Esse é um dos pontos que normalmente desaparecem nas agendas econômicas.
Mesmo um IPCA-15 benigno não significa automaticamente que os juros cairão rapidamente.
O Banco Central trabalha olhando para o futuro.
Se a inflação corrente recuar, mas serviços, expectativas e atividade continuarem pressionados, a autoridade monetária pode concluir que ainda é cedo para acelerar a flexibilização.
Por isso, o conjunto dos indicadores será mais importante do que qualquer número isolado.
Nos EUA, o PCE entra no centro da equação
Na quarta-feira (26), os Estados Unidos divulgam a segunda leitura do PIB e o PCE, índice de inflação acompanhado de perto pelo Federal Reserve.
O mercado tentará descobrir se a economia americana está desacelerando sem que a inflação volte a pressionar.
Essa combinação será fundamental para as expectativas sobre os juros americanos.
Se a inflação continuar cedendo e o crescimento perder força, o espaço para flexibilização aumenta.
Se o PCE permanecer resistente e o mercado de trabalho continuar forte, o Fed poderá precisar manter uma postura mais cautelosa.
E qualquer mudança nas expectativas sobre os juros americanos terá reflexos imediatos sobre os mercados globais.
Jackson Hole pode ser mais importante do que os próprios indicadores
A partir de quinta-feira, o foco internacional estará no Simpósio de Jackson Hole.
O evento ganha importância especial em 2026 porque o mercado acompanhará a comunicação do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh.
O discurso será observado não apenas em busca de uma indicação sobre a próxima reunião do Fed.
O mercado tentará entender a estratégia do novo comando do banco central americano.
Qual será o peso atribuído à inflação?
Quanto o Fed está disposto a tolerar uma inflação acima da meta?
Quão forte precisa ser uma deterioração do mercado de trabalho para justificar cortes?
Essas respostas podem estar escondidas em poucas frases do discurso.
É por isso que Jackson Hole pode provocar uma reação maior do que um indicador econômico isolado.
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O que Jackson Hole pode fazer com o Brasil
Se o mercado interpretar a comunicação do Fed como mais favorável a cortes de juros, os rendimentos dos Treasuries podem recuar.
Isso tende a melhorar o ambiente para ativos de risco e pode favorecer mercados emergentes.
O Brasil pode sentir esse movimento por meio de:
- dólar;
- juros futuros;
- fluxo estrangeiro;
- Bolsa;
- prêmio de risco;
- custo de financiamento.
O contrário também é verdadeiro.
Uma mensagem mais dura do Federal Reserve pode fortalecer o dólar, elevar os rendimentos dos títulos americanos e aumentar a pressão sobre ativos de mercados emergentes.
O investidor brasileiro, portanto, estará negociando parte do cenário americano mesmo sem qualquer decisão do Banco Central do Brasil.
A eleição entra na equação econômica
É aqui que a agenda da semana ganha um componente que pode ser decisivo para os preços dos ativos brasileiros.
A eleição presidencial de 2026 começa a entrar em uma fase de maior disputa, e a pesquisa Veritá divulgada em 21 de agosto trouxe um resultado particularmente relevante.
No primeiro turno, Lula aparece com 39,3% e Flávio Bolsonaro com 39,1% — uma diferença de apenas 0,2 ponto percentual.
No cenário de segundo turno entre os dois, entretanto, Flávio Bolsonaro aparece com 47,3%, contra 42% de Lula.
A pesquisa ouviu 3.840 eleitores entre 16 e 20 de agosto, tem margem de erro de dois pontos percentuais e está registrada no TSE sob o protocolo BR-04006/2026.
Isso não significa que a eleição esteja definida.
A própria margem de erro impede conclusões desse tipo.
Mas o levantamento produz uma informação importante para o mercado:
o cenário competitivo deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a aparecer de forma mais clara nos números.
E eleições competitivas tendem a aumentar a sensibilidade dos mercados a propostas fiscais, gastos públicos, composição de governo e trajetória da dívida.
Por que a eleição pode mexer nos juros antes das urnas
O mercado financeiro não precisa esperar o resultado da eleição para precificar o risco eleitoral.
As expectativas podem aparecer antecipadamente na curva de juros.
Se investidores entenderem que determinado cenário eleitoral aumenta o risco de expansão fiscal, o prêmio exigido para financiar o governo pode subir.
Isso pode elevar os juros futuros mesmo quando a inflação corrente está melhorando.
É uma diferença fundamental:
inflação menor pode pressionar os juros para baixo; risco fiscal maior pode empurrá-los para cima.
O mercado terá de equilibrar as duas forças.
A economia também pode interferir na eleição
A relação funciona nos dois sentidos.
A eleição afeta as expectativas econômicas, mas a economia também influencia a eleição.
Inflação afeta diretamente a percepção do eleitor sobre o custo de vida.
Emprego influencia renda e segurança econômica.
Juros determinam o custo do crédito.
Câmbio pode afetar preços.
E a situação fiscal influencia a percepção sobre a capacidade do governo de manter políticas públicas sem aumentar o risco econômico.
Por isso, os indicadores desta semana podem ter duas leituras simultâneas.
Uma para o mercado.
Outra para o eleitor.
A pesquisa Veritá adiciona um novo componente ao risco
O dado mais importante do levantamento não é simplesmente a liderança de um candidato.
É a diferença entre os cenários.
No primeiro turno, a disputa aparece praticamente empatada entre Lula e Flávio.
No segundo turno direto, Flávio abre vantagem numérica.
Esse deslocamento mostra por que o segundo turno pode ser mais relevante para o mercado do que o primeiro turno.
Em uma eleição polarizada, a possibilidade de alternância de poder pode aumentar a volatilidade conforme novas pesquisas forem divulgadas.
E o mercado tende a reagir não apenas ao candidato que lidera, mas principalmente à percepção sobre qual política econômica poderá prevalecer em cada cenário.
Dívida pública será outro ponto de atenção
Na sexta-feira (28), a divulgação da dívida bruta em relação ao PIB acrescentará mais uma variável à equação.
A trajetória da dívida depende de:
resultado fiscal + crescimento nominal + juros + custo de financiamento.
Por isso, uma eventual melhora da inflação não resolve sozinha a questão fiscal.
Se os juros permanecerem elevados por mais tempo, o custo financeiro da dívida aumenta.
Se o crescimento perder força, a relação dívida/PIB também pode ficar mais difícil de estabilizar.
E, durante uma eleição, essa dinâmica ganha ainda mais importância.
A sexta-feira concentra o maior risco de volatilidade
Poucos dias da agenda terão uma combinação tão carregada.
No Brasil:
IGP-M + dívida bruta/PIB + Novo Caged.
Nos Estados Unidos:
emprego + Jackson Hole.
Ao mesmo tempo, os investidores estarão atualizando suas expectativas para os juros brasileiros e americanos.
É uma combinação capaz de produzir movimentos importantes no câmbio e na curva de juros.
O que o investidor deve observar
IPCA-15 abaixo do esperado
Pode reforçar a percepção de desinflação e pressionar os juros futuros para baixo, especialmente se os núcleos também mostrarem melhora.
IPCA-15 acima do esperado
Pode reduzir as apostas de cortes adicionais da Selic e pressionar a curva de juros.
Mercado de trabalho forte
Pode sustentar consumo e serviços, dificultando uma flexibilização monetária mais rápida.
Mercado de trabalho enfraquecendo
Se vier acompanhado de inflação menor, pode aumentar o espaço para cortes.
PCE mais fraco nos EUA
Pode aumentar as apostas de flexibilização do Fed e favorecer ativos de risco.
PCE persistente
Pode reforçar a perspectiva de juros americanos elevados por mais tempo.
Jackson Hole mais dovish
Pode beneficiar moedas e ativos emergentes.
Jackson Hole mais hawkish
Pode fortalecer o dólar e aumentar a pressão sobre mercados emergentes.
Maior percepção de risco eleitoral
Pode aparecer primeiro nos juros futuros e no câmbio, antes de chegar à Bolsa.
A semana que conecta economia, Fed e eleição
A última semana de agosto reúne uma combinação rara.
Inflação brasileira, mercado de trabalho, inflação americana, atividade econômica, política monetária, dívida pública e eleição estarão sendo avaliados praticamente ao mesmo tempo.
No Brasil, o mercado quer saber se a desinflação ganhou força suficiente para abrir espaço para uma política monetária menos restritiva.
Nos Estados Unidos, investidores querem descobrir qual será a próxima fase do Federal Reserve sob Kevin Warsh.
E, no Brasil, a pesquisa Veritá adiciona uma nova variável ao cenário: Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula em um eventual segundo turno, enquanto os dois praticamente empatam no primeiro turno.
Isso não define a eleição.
Mas muda o nível de atenção do mercado.
Porque quanto mais competitiva fica a disputa, maior tende a ser a importância atribuída às propostas econômicas, ao comportamento fiscal e à trajetória da dívida.
A eleição, portanto, não começa a importar para o mercado apenas no dia da votação. Ela começa a ser precificada muito antes.
E essa é a principal leitura que o investidor precisa levar para a última semana de agosto:
não serão apenas os indicadores que irão mexer com os preços. Será a interpretação de como esses indicadores alteram o espaço para juros menores, como o Fed reagirá e como tudo isso se combina com uma eleição cada vez mais competitiva.
Agenda econômica da semana — 24 a 29 de agosto de 2026
Brasil
Segunda-feira — 24/08
08h25 — Boletim Focus
Terça-feira — 25/08
08h00 — Confiança do Consumidor
Quarta-feira — 26/08
09h00 — IPCA-15
Quinta-feira — 27/08
09h00 — PNAD Contínua / taxa de desemprego
Sexta-feira — 28/08
08h00 — IGP-M
08h30 — Dívida Bruta/PIB
14h30 — Novo Caged
Estados Unidos
Segunda-feira — 24/08
09h30 — Índice de Atividade Nacional do Fed de Chicago
Terça-feira — 25/08
09h15 — ADP
Quarta-feira — 26/08
09h30 — PIB dos EUA — segunda leitura
09h30 — PCE
Quinta-feira — 27/08
09h00 — Simpósio de Jackson Hole
09h30 — Pedidos iniciais de seguro-desemprego
Sexta-feira — 28/08
Jackson Hole
Dados de emprego
Discurso de Kevin Warsh
Sábado — 29/08
Jackson Hole
Europa
Quinta-feira — 27/08
Ata da reunião de política monetária do BCE
Sexta-feira — 28/08
Confiança do consumidor
Confiança industrial
Japão
Quinta-feira — 27/08
IPC de Tóquio
Taxa de desemprego
Sexta-feira — 28/08
IPC de Tóquio — núcleo



