Ação salta quase 10% após notícia de que controladora pretende tirar a siderúrgica da Bolsa; operação pode transformar a USIM5 em um ativo de negociação concentrada e coloca preço da eventual OPA no centro das atenções
As ações preferenciais da Usiminas (USIM5) entraram no radar dos investidores nesta segunda-feira (24) após uma notícia que pode alterar radicalmente o futuro da siderúrgica mineira na Bolsa: a Ternium pretende fechar o capital da companhia, segundo informação divulgada pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo.
O mercado reagiu imediatamente. A USIM5 avançava 7,94%, a R$ 7,07, depois de alcançar alta de 9,47% durante a sessão. O movimento ocorreu justamente em um momento em que a Usiminas vinha apresentando recuperação operacional, tornando a possível saída da Bolsa ainda mais relevante para quem permanece como acionista minoritário.
Mas há um detalhe que muda completamente a leitura do movimento: a intenção da Ternium não significa que o fechamento de capital esteja garantido.
Para cancelar o registro de companhia aberta, a operação precisa seguir o rito previsto pela CVM, incluindo uma OPA para cancelamento de registro, com oferta destinada às ações abrangidas pelo processo. Pela regulamentação vigente, o cancelamento depende, entre outros requisitos, da aceitação ou concordância de titulares de mais de dois terços das ações elegíveis.
É justamente aí que começa a parte mais sensível da história para os minoritários.
A Ternium já controla praticamente todo o bloco de comando
A possível retirada da Usiminas da Bolsa não surge do nada.
Em novembro de 2025, a Ternium anunciou a aquisição da participação remanescente da Nippon Steel e da Mitsubishi no grupo de controle da siderúrgica. A operação envolveu 153,1 milhões de ações ordinárias, equivalentes a 21,71% das ações ordinárias da Usiminas, por aproximadamente US$ 315,2 milhões.
A transação foi concluída em fevereiro de 2026. Com ela, Ternium, Ternium Argentina e Confab passaram a deter conjuntamente 92,9% do grupo de controle, enquanto a Previdência Usiminas permaneceu com 7,1% desse bloco.
Ou seja: a disputa que pode começar agora não é pelo controle da Usiminas.
O controle já está consolidado.
O ponto central é outro: quanto a Ternium terá de pagar para retirar os acionistas minoritários da Bolsa — e quantos deles aceitarão vender.
O verdadeiro preço da saída pode ser mais importante que a alta de hoje
Esse é o ponto que o mercado precisa observar.
Uma eventual OPA de cancelamento de registro não pode simplesmente estabelecer um preço arbitrário. A regulamentação da CVM determina que o preço ofertado deve ser justo e estabelece regras específicas para sua formação, inclusive com referência ao laudo de avaliação quando aplicável.
Por isso, a disparada de USIM5 nesta segunda-feira pode ser interpretada menos como uma aposta no desempenho operacional da siderúrgica e mais como uma reprecificação da possibilidade de uma oferta aos minoritários.
Em outras palavras: o investidor começa a tentar antecipar qual será o valor econômico atribuído pela Ternium às ações que ainda estão fora de seu controle.
E essa conta ficou particularmente interessante porque a Usiminas não está chegando a esse possível processo de saída da Bolsa em situação operacional deteriorada.
Usiminas chega ao possível fechamento de capital com números melhores
O balanço do segundo trimestre de 2026 mostra uma companhia em recuperação operacional.
A Usiminas registrou lucro líquido de R$ 428 milhões no 2T26, alta de 236% sobre os R$ 128 milhões registrados no mesmo período de 2025. O resultado ficou também significativamente acima das expectativas de mercado.
O EBITDA ajustado chegou a R$ 761 milhões, avanço de 86% em 12 meses, enquanto a margem EBITDA avançou para aproximadamente 12%. A receita líquida, porém, caiu 7% na comparação anual, para R$ 6,13 bilhões.
Outro dado relevante é a posição financeira: a Usiminas terminou o trimestre com caixa líquido de aproximadamente R$ 499 milhões, contra R$ 391 milhões no trimestre anterior.
A fotografia, portanto, é curiosa.
A Ternium está discutindo potencialmente a saída da Bolsa de uma empresa que acaba de melhorar sua rentabilidade operacional e fortalecer sua posição financeira.
Isso torna a discussão sobre valuation ainda mais importante.
O que o mercado não pode ignorar: lucro maior não significa necessariamente ação barata
Há uma diferença importante entre uma companhia apresentar melhora operacional e suas ações estarem necessariamente subavaliadas.
O EBITDA de R$ 761 milhões foi beneficiado pela recuperação da operação siderúrgica, mas também houve efeitos não recorrentes apontados em análises de mercado. A XP, por exemplo, chamou atenção para aproximadamente R$ 70 milhões em itens extraordinários e para a possibilidade de pressão de custos no terceiro trimestre.
Isso significa que a discussão sobre o valor da Usiminas não pode ser feita apenas multiplicando o lucro do segundo trimestre por algum múltiplo.
O investidor precisa separar:
- recuperação estrutural da operação;
- efeitos tributários e não recorrentes;
- evolução dos preços do aço;
- volumes vendidos;
- custos de produção e logística;
- geração de caixa;
- posição de caixa líquido;
- investimentos necessários;
- e, principalmente, o valor atribuído ao negócio em uma eventual OPA.
A questão do tag-along volta ao centro do debate
Há ainda uma diferença fundamental entre vender uma participação de controle e retirar uma empresa da Bolsa.
No negócio realizado com a Nippon Steel, a Ternium comprou ações ordinárias pertencentes ao grupo de controle por aproximadamente US$ 2,06 por ação. Esse preço, entretanto, não deve ser automaticamente tratado como referência para uma eventual OPA de cancelamento de registro, porque são operações juridicamente e economicamente diferentes.
Em uma operação de fechamento de capital, os minoritários entram em outro processo, sujeito às regras da CVM para cancelamento de registro.
Esse é justamente o risco que já havia sido destacado pelo mercado quando a Ternium ampliou sua posição: uma eventual deslistagem poderia aumentar a diferença de preços entre as diferentes classes de ações e reduzir a liquidez dos papéis que permanecessem negociados.
Agora, esse risco deixa de ser apenas uma hipótese de mercado e passa a estar no centro da discussão.
Por que a Ternium pode querer tirar a Usiminas da Bolsa?
Aqui está uma das perguntas mais importantes — e que vai além da reação imediata de USIM5.
Com o controle extremamente concentrado, a permanência de uma companhia aberta significa manter custos, obrigações regulatórias, estrutura de governança e uma base de acionistas minoritários.
Se a Ternium entende que o valor estratégico da Usiminas é maior em uma estrutura de capital fechado, a OPA pode ser o caminho para consolidar integralmente o ativo.
E existe outro elemento estratégico.
A Ternium não é apenas uma acionista financeira da Usiminas. Trata-se de um grupo siderúrgico internacional com operações relevantes na América Latina e presença integrada em diferentes etapas da cadeia do aço.
A aquisição progressiva do controle da Usiminas ao longo dos últimos anos mostra que a companhia vem aumentando sua exposição ao ativo.
O fechamento de capital seria, portanto, o passo seguinte de uma estratégia de concentração que começou com a disputa pelo controle e terminou com a saída dos antigos sócios japoneses.
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Para o minoritário, a notícia é boa ou ruim?
A resposta não é tão simples quanto a alta de 8% da USIM5 sugere.
No curto prazo, a notícia é potencialmente positiva, porque uma eventual OPA pode estabelecer uma referência de preço superior à cotação de mercado, dependendo das condições da oferta e da avaliação da companhia.
Mas, no longo prazo, a retirada da Bolsa significa justamente o desaparecimento da liquidez que permite ao investidor negociar diariamente suas ações no mercado.
Por isso, o ponto decisivo será o preço.
Uma oferta suficientemente atrativa pode representar uma oportunidade de saída para o minoritário.
Uma oferta considerada baixa, por outro lado, pode transformar a operação em uma disputa entre controlador e investidores que acreditam que a Usiminas vale mais do que o preço oferecido.
O que o investidor deve acompanhar agora
A notícia desta segunda-feira ainda está no estágio da intenção reportada pela imprensa, e não de uma OPA concluída.
Por isso, os próximos passos serão muito mais importantes do que a alta registrada hoje.
O mercado deverá acompanhar:
1. Comunicação oficial da Usiminas e da Ternium
É o primeiro sinal de confirmação formal da intenção.
2. Eventual protocolo perante a CVM
O cancelamento do registro exige procedimento regulatório específico.
3. Preço da eventual OPA
Esse provavelmente será o principal fator para determinar a reação dos minoritários.
4. Laudo de avaliação
A metodologia e os parâmetros utilizados para chegar ao valor justo serão fundamentais.
5. Participação dos acionistas em circulação
A adesão dos minoritários será determinante para o sucesso do cancelamento.
6. Diferença entre USIM3, USIM5 e USIM6
A possibilidade de fechamento de capital pode provocar movimentos distintos entre as classes de ações.
A leitura que o mercado está fazendo hoje
A disparada da USIM5 não representa simplesmente uma aposta de que a Usiminas ficará mais lucrativa.
O mercado está precificando um evento societário.
A empresa melhorou seus indicadores operacionais, a Ternium consolidou o controle e agora surge a possibilidade de que o controlador tente capturar também o restante do capital fora do mercado.
Isso cria uma situação particularmente sensível:
quanto maior for a percepção de valor da Usiminas, maior tende a ser a pressão dos minoritários por uma oferta considerada justa.
É por isso que a alta de quase 10% nesta segunda-feira pode ser apenas o primeiro movimento de uma história que, se confirmada, será muito mais longa do que a reação de um pregão.
A questão central deixou de ser apenas “quanto vale a USIM5 na Bolsa?”.
Passou a ser:
“Quanto a Ternium está disposta a pagar para que a USIM5 deixe de existir na Bolsa?”
E essa diferença pode definir quem realmente ganhará — e quem ficará para trás — no próximo capítulo da Usiminas.
O que importa para o investidor
USIM5: alta de até 9,47% no pregão após notícia sobre possível fechamento de capital.
Ternium: controladora ampliou fortemente sua participação no bloco de controle após comprar a fatia da Nippon Steel e da Mitsubishi.
OPA: eventual cancelamento do registro exige oferta pública e cumprimento das regras da CVM.
Minoritários: o preço da oferta e a metodologia de avaliação serão os pontos mais sensíveis.
Fundamentos: lucro de R$ 428 milhões e EBITDA ajustado de R$ 761 milhões no 2T26 mostram recuperação operacional, embora existam fatores não recorrentes e riscos de custos.
Ponto de atenção: a melhora operacional da Usiminas pode aumentar a discussão sobre o valor justo da companhia justamente no momento em que seu controlador avalia concentrar ainda mais o capital.








