Resultado do 2T26 mostra forte expansão de lucro, margens e geração de caixa, mas créditos fiscais, efeitos financeiros e outros fatores não recorrentes exigem cautela antes de transformar o balanço em tese de compra
A Embraer fechou o segundo trimestre de 2026 com números que, à primeira vista, impressionam. O lucro líquido ajustado chegou a R$ 1,11 bilhão, alta de 25,1% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a receita líquida alcançou R$ 11,3 bilhões, avanço de 10% e recorde para um segundo trimestre.
Mas, para o investidor, o principal ponto do balanço não está apenas no tamanho do lucro. Embora as ações estejam performando com forte alta após a divulgação do resultado. O investidor vai analisar com calma.
A companhia também apresentou forte expansão do EBITDA, aumento das margens, geração de caixa de aproximadamente R$ 2 bilhões no trimestre, excluindo a Eve, e elevou de US$ 200 milhões para US$ 400 milhões ou mais sua projeção de fluxo de caixa livre ajustado para 2026.
O problema é que parte dessa melhora não pode ser automaticamente tratada como recorrente.
É justamente essa separação — entre crescimento operacional, efeitos extraordinários e aquilo que efetivamente pode permanecer nos próximos trimestres — que define a qualidade do resultado da Embraer (EMBJ3).
Ticker: EMBJ3
Setor: Aeroespacial e Defesa
Resultado: 2º trimestre de 2026
Data: 10 de agosto de 2026
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Mas há um detalhe que muda a leitura do resultado: a margem EBIT ajustada reportada de 13,4% foi beneficiada por um crédito tributário extraordinário de US$ 68 milhões. Considerando também o impacto das tarifas de importação americanas, a margem teria sido de 10,6%, segundo a própria companhia.
É essa diferença que importa para o investidor.
A Embraer melhorou operacionalmente. Mas ainda precisa provar que o novo nível de rentabilidade pode ser sustentado sem a ajuda de efeitos extraordinários.
O balanço em números
| Indicador | 2T26 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita líquida | R$ 11,34 bi | +10,4% |
| Lucro líquido ajustado | R$ 1,11 bi | +25,1% |
| EBITDA ajustado | R$ 1,81 bi | +30,3% |
| Margem EBITDA ajustada | 16% | +2,5 p.p. |
| Margem EBIT ajustada | 13,4% | — |
| Margem EBIT sem efeitos específicos | 10,6% | — |
| Aeronaves entregues | 65 | +7% |
| Backlog | US$ 34,5 bi | +16% |
| FCF ajustado sem Eve | ~R$ 2 bi | forte geração |
A primeira conclusão é evidente: o lucro está crescendo muito mais rapidamente que a quantidade de aeronaves entregues.
E é justamente aí que começa a análise.
Lucro cresce 25%, mas as entregas avançam apenas 7%
A Embraer entregou 65 aeronaves no segundo trimestre, contra 61 no mesmo período de 2025.
Foram:
- 20 jatos comerciais;
- 45 jatos executivos;
- 24 jatos executivos leves;
- 21 jatos executivos médios.
As entregas totais aumentaram 7%.
No mesmo período:
receita subiu 10,4%;
EBITDA ajustado avançou 30,3%;
lucro líquido ajustado cresceu 25,1%.
A diferença é importante.
Se o lucro estivesse crescendo apenas porque a Embraer está entregando muito mais aeronaves, a explicação seria relativamente simples.
Não é o que aconteceu.
O resultado foi influenciado por mix de produtos, eficiência operacional, despesas financeiras e efeitos extraordinários.
Para o acionista, isso cria uma pergunta muito mais relevante:
quanto do ganho de margem permanecerá depois que os efeitos específicos do trimestre desaparecerem?
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Receita recorde não significa que todos os negócios estejam acelerando
A receita líquida atingiu R$ 11,34 bilhões, alta de 10,4% em um ano.
Mas a composição mostra diferenças importantes entre os segmentos.
A Aviação Executiva apresentou receita de R$ 3,68 bilhões, crescimento de 19%.
A Aviação Comercial, por outro lado, teve receita de R$ 3,18 bilhões, queda de 2% na comparação anual.
Segundo a companhia, a valorização do real diante do dólar prejudicou a receita em reais da aviação comercial, apesar do crescimento das entregas.
Isso impede uma leitura simplista de que toda a Embraer está acelerando na mesma velocidade.
A empresa possui hoje uma combinação de aviação comercial, executiva, defesa e serviços, com exposições diferentes a câmbio, demanda e margens.
Para o investidor, o mix importa tanto quanto o crescimento consolidado.
O EBITDA é o dado que mais chama atenção
O EBITDA ajustado alcançou R$ 1,81 bilhão, alta de 30,3%.
A margem EBITDA subiu de aproximadamente 13,5% para 16%.
É uma expansão relevante e representa um dos sinais mais fortes do balanço.
A Embraer está conseguindo aumentar o resultado operacional mais rapidamente que a receita.
Isso pode indicar ganhos de produtividade, melhor mix e maior eficiência.
Mas existe uma diferença entre uma margem estruturalmente maior e uma margem impulsionada por fatores específicos de um trimestre.
Por isso, o EBITDA do 2T26 é um dado positivo, mas os próximos trimestres serão o teste definitivo.
O crédito tributário muda a leitura da margem
Aqui está provavelmente o ponto mais importante de todo o balanço.
A Embraer reconheceu um crédito tributário extraordinário de US$ 68 milhões no segundo trimestre.
Além disso, as tarifas de importação americanas tiveram impacto de US$ 8 milhões.
A margem EBIT ajustada reportada foi de 13,4%.
Sem esses efeitos, a companhia informou que a margem teria sido de 10,6%.
Isso não significa que o resultado tenha sido fraco.
Significa algo mais simples:
não é prudente projetar 13,4% de margem EBIT para os próximos trimestres como se esse fosse o novo padrão operacional.
Para uma análise de investimento, os 10,6% são uma referência mais conservadora para entender o desempenho recorrente do trimestre.
E mesmo 10,6% representa uma evolução relevante diante do guidance anterior da companhia.
Embraer melhora o guidance — e isso é mais importante que o lucro isolado
A companhia elevou sua projeção de fluxo de caixa livre ajustado para 2026.
O piso anterior era de US$ 200 milhões.
Agora, a expectativa é de US$ 400 milhões ou mais.
A projeção de margem EBIT ajustada também foi elevada para 10% a 10,6%, contra 8,7% a 9,3% anteriormente.
As demais projeções foram mantidas:
- receita de US$ 8,2 bilhões a US$ 8,5 bilhões;
- 80 a 85 aeronaves comerciais;
- 160 a 170 jatos executivos;
- margem EBIT ajustada de 10% a 10,6%;
- fluxo de caixa livre ajustado de pelo menos US$ 400 milhões.
Há uma informação importante nessa revisão.
A Embraer não elevou a faixa de receita nem o volume de entregas previstos. Elevou a expectativa de rentabilidade e caixa.
Isso sugere que a companhia espera extrair mais resultado da mesma base de negócios anteriormente projetada.
Para o acionista, esse é um sinal mais relevante do que simplesmente uma revisão para cima de vendas.
Mas US$ 400 milhões ainda são guidance, não dinheiro no bolso
A revisão do fluxo de caixa é positiva, mas não deve ser tratada como resultado realizado.
No segundo trimestre, o fluxo de caixa livre ajustado sem Eve ficou próximo de R$ 2 bilhões, beneficiado por desempenho operacional, entradas relacionadas a vendas e pelo crédito tributário extraordinário.
Isso torna o número do trimestre particularmente forte.
Mas também significa que não é correto simplesmente multiplicar o caixa do 2T26 por quatro para projetar o ano.
A qualidade da geração de caixa precisa ser acompanhada ao longo do segundo semestre.
O verdadeiro teste será descobrir quanto desse caixa continuará sendo gerado sem créditos extraordinários e com a operação normalizada.
Backlog de US$ 34,5 bilhões é forte, mas não é dinheiro realizado
A carteira de pedidos firmes da Embraer alcançou US$ 34,5 bilhões, alta de 16% em 12 meses e novo recorde.
É o sétimo recorde consecutivo do backlog.
O crescimento por segmento também chama atenção:
- Defesa & Segurança: +42%;
- Aviação Comercial: +15%;
- Serviços & Suporte: +12%.
A carteira recorde aumenta a visibilidade da receita futura.
Mas existe uma diferença fundamental entre:
pedido → produção → entrega → receita → lucro → caixa.
O backlog está na primeira etapa dessa cadeia.
A companhia ainda precisa executar os contratos.
Por isso, o backlog é um dos pontos mais fortes da tese, mas não deve ser tratado como lucro futuro garantido.
Defesa cresce na carteira, mas não entregou aeronaves no trimestre
A ausência de entregas no segmento de Defesa no segundo trimestre merece acompanhamento.
Isso não significa que o negócio esteja enfraquecido.
Pelo contrário: o backlog de Defesa & Segurança cresceu 42% em 12 meses.
O que isso mostra é que existe uma diferença entre demanda contratada e reconhecimento operacional.
Para o investidor, o próximo passo é observar quando esse backlog começa a se transformar em entregas, receita e caixa.
Esse é um dos indicadores que poderá sustentar o crescimento da Embraer nos próximos trimestres.
A dívida líquida caiu — e isso melhora a qualidade financeira
A dívida líquida sem Eve caiu para aproximadamente R$ 1,11 bilhão, contra R$ 2,77 bilhões no trimestre anterior.
A relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado dos últimos 12 meses recuou de 0,6 vez para 0,2 vez.
Esse é um avanço importante.
Uma empresa que cresce receita e lucro, mas precisa aumentar excessivamente a dívida para financiar esse crescimento, não necessariamente melhora sua qualidade financeira.
Na Embraer, o movimento foi diferente no trimestre:
mais resultado + forte geração de caixa + menor alavancagem.
Essa combinação é positiva.
Mas, novamente, o investidor precisa verificar se a geração de caixa permanece forte nos próximos trimestres.
E os acionistas vai receber quanto?
A Embraer declarou em junho R$ 200 milhões em juros sobre capital próprio, correspondentes a R$ 0,28 por ação, referentes ao segundo trimestre.
A companhia informou que avalia trimestralmente o benefício fiscal desses pagamentos e poderá complementar a remuneração por meio de dividendos quando necessário para atingir o pagamento mínimo de 25% do lucro líquido previsto na legislação.
O crescimento do caixa melhora potencialmente a capacidade de remuneração do acionista.
Mas, neste momento, o ponto central do balanço não é o provento.
É a capacidade de transformar o crescimento operacional em caixa recorrente e retorno sobre o capital.
Eve continua sendo opção de longo prazo — não resultado do 2T26
A Eve Air Mobility permanece como uma aposta estratégica relacionada ao ecossistema da Embraer, mas não deve ser usada para inflar a leitura do resultado atual.
O negócio de eVTOLs ainda depende de certificação, produção, infraestrutura, regulamentação e entrada efetiva em operação comercial.
Portanto:
Embraer operacional é resultado presente.
Eve é potencial futuro.
Misturar as duas coisas produziria uma avaliação excessivamente otimista da companhia.
O que pode confirmar que o 2T26 foi um ponto de inflexão
O mercado não precisa de outro trimestre com um crédito tributário extraordinário para confirmar a tese.
Precisa de algo mais simples:
margem EBIT perto ou acima de 10%;
fluxo de caixa livre consistente;
backlog convertido em entregas;
redução ou controle da alavancagem;
crescimento do lucro por ação;
melhora operacional sem depender de efeitos não recorrentes.
Se esses fatores aparecerem simultaneamente nos próximos balanços, o resultado do 2T26 ganhará importância muito maior.
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O que pode frustrar o investidor
O principal risco não está nos números atuais.
Está na expectativa criada por eles.
Depois de um trimestre forte, o mercado passa a exigir que a empresa mantenha o novo padrão.
Se a margem voltar para níveis muito inferiores, se o fluxo de caixa perder força ou se as entregas ficarem abaixo do esperado, o mercado poderá revisar suas projeções.
Além disso, uma ação pode cair mesmo depois de um excelente balanço se o preço já tiver incorporado uma parcela elevada do crescimento futuro.
Por isso, resultado operacional e preço da ação precisam ser analisados separadamente.
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O que realmente mudou para o investidor de EMBJ3?
O 2T26 não transforma automaticamente EMBJ3 em compra.
Mas muda a discussão.
A Embraer mostrou:
receita recorde;
EBITDA crescendo 30,3%;
margem EBITDA de 16%;
backlog recorde de US$ 34,5 bilhões;
dívida líquida menor;
guidance de caixa dobrado.
Ao mesmo tempo, mostrou que parte da margem EBIT do trimestre foi favorecida por um crédito tributário extraordinário de US$ 68 milhões.
Essa combinação torna o próximo balanço especialmente importante.
O mercado não precisará apenas saber quanto a Embraer lucrou.
Precisará saber quanto desse lucro pode ser repetido.
Termômetro do 2T26
| Indicador | Leitura |
| Receita | 🟢 Forte |
| Lucro ajustado | 🟢 Forte |
| EBITDA | 🟢 Muito forte |
| Margem EBITDA | 🟢 Forte |
| Margem EBIT reportada | 🟢 Forte |
| Margem EBIT sem efeitos específicos | 🟢 Positiva |
| Backlog | 🟢 Muito forte |
| Entregas | 🟢 Positivas |
| Fluxo de caixa | 🟢 Forte, mas com efeitos extraordinários |
| Dívida líquida | 🟢 Melhorou |
| Aviação Comercial | 🟡 Atenção |
| Defesa | 🟢 Backlog forte / execução a acompanhar |
| Guidance 2026 | 🟢 Melhorou |
| Recorrência dos ganhos | 🟡 Principal ponto de atenção |
O que realmente melhorou para o acionista?
O balanço do segundo trimestre mostra quatro avanços que merecem ser acompanhados:
1. Maior rentabilidade
O EBITDA cresceu mais que a receita e a margem subiu de maneira expressiva.
2. Maior geração de caixa
O guidance de fluxo de caixa livre foi dobrado para 2026.
3. Maior visibilidade de receita
O backlog de US$ 34,5 bilhões é recorde.
4. Maior escala operacional
As entregas do primeiro semestre cresceram 20% sobre o mesmo período de 2025.
Mas existe uma quinta variável, que não aparece no balanço:
quanto o mercado já pagou por essa melhora?
O problema para o investidor: uma empresa excelente não é necessariamente uma ação barata
Essa é a parte que costuma desaparecer nas matérias tradicionais de balanço.
A Embraer apresenta fundamentos operacionais melhores, mas a ação também passou por uma forte reprecificação nos últimos anos.
Em julho, por exemplo, EMBJ3 era negociada na faixa de R$ 86,90, enquanto a máxima de 52 semanas estava em R$ 105,50.
Isso significa que o investidor não está diante de uma companhia desconhecida pelo mercado.
Ao contrário: boa parte da história de recuperação da Embraer já foi descoberta pelos investidores.
O desafio agora é que os lucros cresçam suficientemente rápido para justificar a valorização da ação.
Esse é um ponto fundamental.
A tese pode estar correta e a ação ainda assim oferecer retorno limitado se o preço já incorporar grande parte do crescimento esperado.
O que pode fazer EMBJ3 continuar subindo
A ação poderá continuar encontrando suporte se a companhia conseguir entregar simultaneamente:
- crescimento das entregas;
- expansão de margens sem depender de extraordinários;
- geração de caixa recorrente;
- redução de capital empregado por unidade produzida;
- crescimento do backlog;
- avanço dos negócios de defesa;
- expansão da aviação executiva;
- execução consistente do plano industrial.
Nesse cenário, o mercado poderá revisar novamente para cima as estimativas de lucro e caixa.
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E o que pode derrubar a tese?
Os riscos também são claros.
Margens: se parte relevante do salto do 2T26 não se repetir, as estimativas podem ser revistas.
Execução: backlog elevado não elimina problemas de produção, fornecedores ou entrega.
Câmbio: a exposição internacional torna o resultado sensível às oscilações cambiais.
Tarifas: mudanças na política comercial dos Estados Unidos podem alterar custos e margens.
Capital: expansão industrial exige investimentos e capital de giro.
Valuation: quanto maior o preço da ação em relação ao lucro futuro, menor a margem de segurança.
Expectativas: uma companhia que entrega resultados excelentes pode ver suas ações cair se o mercado esperava algo ainda melhor.
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A leitura que realmente importa
O balanço da Embraer é forte. Seria errado minimizar o avanço de lucro, EBITDA, margem, entregas, backlog e geração de caixa.
Mas também seria errado transformar automaticamente esses números em uma recomendação de compra.
O segundo trimestre mostra uma companhia que parece estar conseguindo capturar escala, produtividade e melhor mix, ao mesmo tempo em que se beneficia de fatores extraordinários que elevaram algumas métricas do período.
A grande questão para os próximos trimestres será descobrir quanto dos R$ 1,11 bilhão de lucro e do novo guidance de US$ 400 milhões de caixa representa uma nova realidade operacional e quanto é efeito de um trimestre particularmente favorável.
Para quem já é acionista, o balanço reforça a importância de acompanhar a execução.
Para quem ainda pretende comprar EMBJ3, a pergunta é diferente:
não basta saber se a Embraer está melhorando. É preciso saber se a ação ainda está barata o suficiente para que o investidor capture essa melhora.
E essa diferença — entre uma empresa melhor e uma ação que ainda oferece retorno potencial — é onde começa a verdadeira análise de investimento.
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